
05/01/2021
Graças a projetos de recuperação e proteção de sua população, o número de exemplares de arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) — uma espécie ameaçada de extinção, que vive exclusivamente na região conhecida como Raso da Catarina, na Caatinga do Nordeste da Bahia — aumentou de apenas 60 para mais de 1,7 mil nos últimos 40 anos.
É uma boa notícia, sem dúvida, mas que trouxe um efeito colateral indesejado, não previsto.
Devido à escassez de sua comida natural preferida, o coquinho licuri (coquinho pequeno que dá em cachos grandes), as aves se voltaram aos milharais, entrando em conflito com os agricultores do entorno da área de proteção onde vivem.
De acordo com a agrônoma e mestre em Ciências Florestais Kilma Manso Raimundo da Rocha, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), que atua na região desde 2005, a conservação da arara-azul-de-lear se deve a um conjunto de esforços de diferentes instituições, responsáveis, dentre outras ações, pela proibição do tráfico de animais silvestres e à caça furtiva; preservação do habitat da espécie; pesquisas sobre ela e seu ambiente; mitigação dos conflitos com produtores rurais e educação ambiental.
"O aumento da população de araras é o resultado direto da integração dessas ações, quer desenvolvidas em conjunto ou de forma isolada, há mais de três décadas", diz.
Mas com o aumento do número das aves vieram os conflitos com os agricultores, principalmente com os plantadores de milho, que, na região, serve de alimentos para as pessoas, o gado e as galinhas.
E agora, contra a vontade dos produtores, alimenta também as araras-azuis-de-lear. "Infelizmente, a espécie é considerada praga por eles na região do Raso da Catarina, por atacar sistematicamente milharais", conta Kilma.
Segundo ela, os ataques às lavouras de milho ocorrem em diversas fases de cultivo, mas principalmente durante o período de amadurecimento das espigas.
"E por causa do grande número de araras que compõem os bandos que atacam os milharais, os danos costumam ser bastante severos, resultando em perda de praticamente toda a área cultivada e, por conseguinte, acarretando sérios prejuízos aos agricultores", explica Kilma.
Um bando grande delas, por exemplo, é capaz de destruir um hectare de lavoura (cerca de 1,5 campos de futebol) em um ou dois dias.
No contra-ataque em defesa de suas plantações, os produtores usam pedras, paus e até armas de fogo.
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