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Dia da Amazônia: do Rio Negro e de igarapés, 27 toneladas de lixo são coletadas diariamente

09/09/2021

Em uma casa de palafita, com um quintal flutuante onde cria galinhas e porcos para vender, o autônomo Jorge Machado tira o sustento de sua família do rio. Ele coleta lixo, sobretudo plástico, para reciclagem. Há 40 anos, vê sua matéria-prima crescer sob seus olhos. Ele vive num igarapé, em Manaus, como a maior parte da população da Amazônia brasileira. No Rio Negro, que escorre no santuário do mundo, são coletadas diariamente, somadas a resíduos de igarapés, 27 toneladas de lixo. O que antes dava peixe hoje dá um tipo de poluição muito comum em grandes metrópoles.
— Tiro de tudo aqui no rio: madeira, ferro, alumínio, mas o que tem mais é plástico. Tem muita garrafa pet — diz ele, destacando que ainda há vida entre a sujeira. — Dá pra tirar pelo menos o Jaraqui.
Mas o peixe típico da região não aparece em tanta quantidade quanto os resíduos que têm garantido ao idoso de 66 anos a sobrevivência nos momentos mais trágicos da pandemia. O Panorama de Resíduos Sólidos no Brasil de 2020, da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), revela o que poucos associam ao Amazonas, que chama muito mais atenção internacional pelas queimadas e desmatamento da floresta. O levantamento diz que, mesmo com população cinco vezes menor que o estado de São Paulo e três vezes menor que a do Rio de Janeiro, o estado ocupa o terceiro lugar no ranking da geração per capita de resíduos sólidos diários, com 1,075 kg contra 1,388 kg de SP e 1,313 kg do RJ.
O lixo descartado inadequadamente, que chega às águas dos rios, é uma ameaça a mais e pouco conhecida para a Amazônia. Uma realidade compartilhada em todo Norte do país, onde 79% das cidades não conseguem dar o destino correto ao lixo. É também na região que se registram os menores índices de cobertura de coleta, ao lado do Nordeste.
No interior do Amazonas, o lixo carregado pelas águas vai parar nas florestas de várzea, em áreas de planícies inundáveis, invadidas pelas cheias sazonais da Bacia Amazônica. A movimentação de embarcações de todo o porte é intensa a aproximadamente 200 metros da orla central de Manaus. O abastecimento do comércio do interior com produtos industrializados de toda ordem — de cesta básica a eletrodomésticos — e a chegada da produção de banana, entre outras frutas e verduras, geram um fluxo de gente e descarte de resíduos que se espalham no horizonte.
Nos três mercados de produtos regionais, a feira Manaus Moderna — responsável pelo escoamento de 20% da produção de frutas, verduras e carnes do estado —, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa — que negocia carnes, peixes e artesanato — e a Feira da Banana — que comercializa a fruta mais popular do estado — viraram cenário de intenso despejo.
A imensidão do Rio Negro e a coleta diária da prefeitura acabam por dissipar parte do que se acumula nos rios, mas é possível ver fraldas descartáveis, recipientes de marmita, sacolas plásticas, garrafas pet, pedaço de pneu e de isopor boiando conforme o fluxo do banzeiro. No trajeto de barco até o bairro Educandos, na Zona Sul da cidade, O GLOBO flagrou algumas sacolas e restos de marmita perto de casas suspensas na água, que atraem voos rasantes de urubus.
— Muito é lixo doméstico. A pessoa acaba de cozinhar e joga o óleo no mar — diz Fábio Oliveira, da equipe de coleta fluvial.
Desde 2019, quando encontrou uma garrafa de Coca-Cola na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a estudante de Ciências Biológica Zeneide Silva, da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), tenta entender os descaminhos da poluição numa das áreas que deveriam ser mais protegidas no planeta. A peça era um edição especial do Peru e pode ter percorrido 1,3Km até chegar ali.
— Não temos como saber se vem das comunidades do entorno da cidade ou de longe. Seria necessário aprofundar a investigação — conta Zeneide, que precisou paralisar a pesquisa devido à pandemia.
O plástico foi o material mais coletado dentro da área de preservação, que fica em Tefé, a 551Km de Manaus, cerca de quatro horas de viagem de lancha. Lá, boa parte da floresta ainda está preservada e saber o que a ameaça é fundamental para o futuro do lugar.
— Entre os materiais coletados, 84% eram compostos de plástico, 8% de borracha e 8% de isopor. A pergunta que nos instiga é: quem está deixando este lixo? De onde ele vem? Chegaremos a ter mais plástico do que peixe? Mais plástico do que árvore? — indaga o pesquisador Elias Neto, que supervisionou o estudo.
Uma coisa já é possível saber: no entorno de Tefé, há 89 comunidades rurais e em nenhuma delas há coleta regular de lixo. Os lixões são maioria no sistema de destino final utilizado no estado, totalizando 55,88%. Das 34 unidades que coletam resíduos no Amazonas, cadastradas na base de dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), apenas 2,94% são aterros sanitários.
Procurada pelo Globo, a Prefeitura de Manaus não retornou.

Fonte: O Globo

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