
25/02/2025
Um estudo de pesquisadores brasileiros classificou o Rio dos Bugres, que fica no sistema estuarino entre Santos e São Vicente, no litoral de São Paulo, como o segundo mais poluído por microplásticos do mundo. De acordo com o pesquisador e biólogo marinho William Rodriguez Schepis, a exposição a esses poluentes pode ser cancerígena e está associada a outros problemas de saúde.
O estudo, que levou em consideração outros corpos d´água com dados publicados em artigos científicos, foi divulgado na revista Marine Pollution Bulletin pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) e também pelo Instituto EcoFaxina, organização não governamental da Baixada Santista dirigida pelo pesquisador William Rodriguez Schepis.
Para compreender a dispersão dos poluentes ao longo da região estuarina, a equipe coletou amostras de sedimentos em dez pontos, incluindo o Canal de São Vicente e o Canal do Porto de Santos, entre abril e julho de 2018. O material foi analisado em laboratório.
No trecho do Rio dos Bugres que mais se destaca, havia 93.050 partículas de microplásticos por quilo de sedimento coletado no fundo da água. Ele fica atrás apenas do Rio Pasur, em Bangladesh, país do Sul da Ásia, com 157 mil partículas na mesma quantidade de sedimentos.
Schepis explicou que os microplásticos são fragmentos de plásticos com menos de 5 mm, podendo ser observados apenas em laboratório. Segundo ele, os materiais podem vir da fragmentação de objetos maiores, como embalagens e fibras sintéticas de roupas e pneus. No Rio dos Bugres, de acordo com o biólogo, as ocupações em palafitas influenciam o número expressivo de poluentes.
"A gente tem o Dique da Vila Gilda de um lado da margem do rio e, do outro, a gente tem o Dique Sambaiatuba. Na ponta, na foz do rio, você também tem uma ocupação muito grande ali do lado de São Vicente, mais recente. É uma comunidade que ocupa área de manguezal", disse Schepis, que estima a moradia de cerca de 20 mil pessoas somente na Vila Gilda.
De acordo com o biólogo, esses poluentes podem ser cancerígenos para o ser humano, causando disfunção da produção hormonal, problemas endócrinos, neurológicos e circulatórios. Nos peixes, podem ocasionar disfunções hormonais e reprodutivas. "Ali, tanto a água que é usada nas moradias e [quanto] o resíduo são descartados diretamente no manguezal", explicou ele.
Schepis explicou que o artigo sobre o Rio Bangladesh utilizado para embasar o gráfico do estudo (confira acima) foi publicado em 2023, mas despublicado em fevereiro deste ano pela editora científica Elsevier. O g1 apurou que ela acusa o pesquisador brasileiro Guilherme Malafaia de submeter uma revisão do artigo em nome de um cientista sem o conhecimento dele.
Apesar disso, a equipe do estudo sobre o Rio dos Bugres considerou os dados válidos até o momento. "Esse artigo foi retirado de uma revista científica, mas ele continua em algumas outras que pode ser que sigam o mesmo caminho", afirmou o diretor-presidente do EcoFaxina.
Procurado pelo g1, Guilherme Malafaia disse que as alegações imputadas a ele pela editora carecem de fundamentação adequada, refletem falhas sistêmicas na gestão editorial, assim como "potenciais abusos e forte tendência de impacto de ações unilaterais, arbitrárias e, acima de tudo, desproporcionais sobre autores de países em desenvolvimento". Ele defende a necessidade de transparência e de uma investigação baseada em evidências concretas.
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