
27/02/2025
Cidades brasileiras têm ignorado uma solução simples e econômica para lidar com a crise climática: a arborização. É o que constata o botânico e paisagista Ricardo Cardim, que há mais de 15 anos trabalha com restauração de biodiversidade na capital paulista.
"Precisamos de árvores altas, que formem corredores verdes, com túneis de sombra. Para saber se uma rua é eficiente em termos de adaptabilidade climática, basta ver se ela tem árvores sombreando calçada e asfalto", afirma.
"Com isso, conseguimos reduzir a temperatura, aumentar a umidade do ar e diminuir o risco de enchentes, porque as copas retêm água da chuva, que será levada lentamente para o lençol freático."
Hoje, menos de 7% das áreas urbanas do país são cobertas por vegetação, conforme levantamento do MapBiomas, rede ambiental composta por universidades, ONGs e empresas de tecnologia.
Além disso, as árvores mais comuns nas cidades brasileiras são de origem estrangeira e pequeno porte —como as asiáticas resedá e a árvore-da-china— e não trazem benefícios ambientais, de acordo com Cardim. Ele estima que 90% da vegetação nas vias de São Paulo seja não nativa.
"Há um excesso de plantas invasoras, que geram uma série de problemas ecológicos, como a degradação dos remanescentes nativos e falta de alimento para a fauna tradicional."
Outra desvantagem é que essas espécies não criam túneis de sombra. "Uma árvore anã é apenas um enfeite na cidade. Em um dia quente, ela não ajuda em nada", critica o paisagista. Segundo ele, espécies como cabreúva e jatobá, que podem atingir mais de 30 metros, são ideais.
Solução capaz de amenizar o calor é a substituição de vagas de estacionamento nas ruas por vegetação. "Isso já vem sendo feito em países europeus e é extremamente simples. Basta reorganizar as vagas para criar nichos de árvores e jardins de chuva, mas mantendo a maioria."
Paris abraçou a ideia no novo plano climático que aprovou no ano passado, comprometendo-se a substituir 60 mil vagas por árvores até 2030 e recuperar 100 hectares para uso de pedestres e criação de áreas verdes.
No entanto, é preciso ir além do plantio, garantindo manutenção eficiente. Essa é uma falha em São Paulo: estudo de pesquisadores brasileiros publicado na revista científica "Trees: Structure and Function" mostrou que a queda de árvores na capital ocorre tanto no período chuvoso quanto no seco.
Observa-se uma combinação entre fatores climáticos, como chuvas e ventos fortes, e manejo inadequado.
Apenas entre 2013 e 2016, cerca de 7.000 árvores de rua caíram —média de seis por dia—, resultando na perda de 1% da arborização viária da cidade (em calçadas e canteiros centrais).
Termine de ler esta reportagem acessando a Folha de S. Paulo
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