
05/08/2025
Um plano do governo de Donald Trump para construir um muro de cerca de 40 quilômetros ao longo de um trecho remoto de campos e montanhas no Arizona, sul dos Estados Unidos, bloquearia um dos maiores e mais importantes corredores de vida selvagem restantes na fronteira do estado com o México, de acordo com um relatório deste mês do Centro para Diversidade Biológica, grupo de conservação.
"Uma barreira aqui bloquearia o movimento de espécies, destruiria habitats protegidos e causaria danos irreversíveis às ligações ecológicas críticas", afirmou o relatório.
Câmeras de monitoramento de vida selvagem fotografaram 20 espécies de animais movendo-se livremente através da fronteira nesta área —incluindo ursos, pumas e veados—, movimento que seria drasticamente reduzido pelo muro planejado de nove metros de altura, dizem os pesquisadores.
Esta parte da região fronteiriça, que inclui o vale San Rafael e as montanhas Patagonia e Huachuca, também contém habitat crítico para onças-pintadas ameaçadas de extinção, com pelo menos três delas registradas na área na última década. Ao menos outras 16 espécies ameaçadas e em perigo de extinção são encontradas ali.
"É uma boa perspectiva do que está acontecendo e do que vai acontecer", disse Gerardo Ceballos, ecologista e pesquisador sênior da Universidade Nacional Autônoma do México, sobre o relatório. Se este muro e alguns outros forem construídos, ele disse, "logo não haverá mais onças-pintadas nos EUA".
A secretária de Segurança Interna Kristi Noem abriu caminho para a construção do trecho do muro em junho, emitindo dispensas que isentam os empreiteiros de mais de 30 leis federais, incluindo a Lei Nacional de Política Ambiental.
Ganesh Marín, biólogo que estuda o movimento da vida selvagem com a Conservation Science Partners, grupo científico sem fins lucrativos, disse que um muro de fronteira também poderia fazer com que animais menores que servem de presa evitassem a área. Isso, por sua vez, poderia levar a efeitos negativos em cascata dentro do ecossistema, de acordo com um estudo que Marín publicou com John Koprowski, pesquisador da Universidade de Wyoming.
O muro da fronteira não apenas impede o movimento dos animais, disse Marín, mas "modifica todo o ecossistema ao redor daquela comunidade".
Em tempos de seca, é especialmente importante que grandes animais possam se deslocar por longas distâncias para encontrar meios de sobrevivência, algo que o muro da fronteira dificultaria, disse Emily Burns, diretora de programas da Sky Island Alliance, grupo ambiental que monitora movimentos de animais no vale com uma rede de câmeras.
O governo federal construiu mais de 350 quilômetros de muro ao longo da fronteira sul do Arizona durante o primeiro mandato de Trump. Essas barreiras de nove metros consistem em vigas de aço colocadas a dez centímetros de distância, o que interrompe a maior parte do movimento da vida selvagem.
Atualmente as barreiras fronteiriças na área de San Rafael —cercas baixas de arame farpado e barreiras para veículos na altura do peito— permitem que os animais atravessem, segundo Myles Traphagen, pesquisador e coordenador do grupo de conservação Wildlands Network.
Duas organizações de conservação sem fins lucrativos, o Centro para Diversidade Biológica e a Conservation Catalyst, entraram com uma ação judicial em 8 de julho no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito do Arizona, contestando a decisão de Noem de contornar as leis ambientais.
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