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Após projeto de ONG, proprietários rurais conservam vegetação nativa além da obrigação legal

21/08/2025

Quando se fala em reduzir o desmatamento ilegal, especialistas apontam que a resposta está principalmente no aumento da fiscalização ambiental. Mas e como evitar que venham ao chão florestas que podem ser derrubadas legalmente? Uma alternativa pode ser remunerar produtores para manterem essa vegetação em pé.
Um projeto desenvolvido pelo Ipam (Instituto de Pesquisa da Amazônia), ONG focada no desenvolvimento sustentável da floresta amazônica e do cerrado, pagou a proprietários rurais para preservarem áreas vegetadas que excedem o mínimo obrigatório por lei —e a maioria deles continuou preservando mesmo após o fim da remuneração.
Contando apenas imóveis que têm registro no CAR (Cadastro Ambiental Rural), na amazônia há mais de 7 milhões de hectares que poderiam ser derrubados, mediante licença, segundo dados do Observatório do Código Florestal. O índice passa de 32 milhões de hectares no cerrado. Somados os dois biomas, o número equivale a duas vezes a área do Paraná e ultrapassa a da Alemanha.
Como uma alternativa para oferecer ao produtor que teria o direito de desmatar, o Ipam criou o programa Conserv, em parceria com o Woodwell Climate Research Center e Environmental Defense Fund.
Após três anos de estudo, foi desenvolvido um projeto-piloto e, de 2020 a 2024, foram firmados contratos com produtores e empresas de Mato Grosso, onde 20 fazendas foram contempladas, e do Pará, onde uma propriedade foi incluída no projeto.
Anualmente, os proprietários receberam por cada hectare de vegetação excedente de R$ 270 a R$ 350, dependendo de diferentes condicionantes ambientais. Nessa primeira fase, o Conserv foi financiado pelas embaixadas dos Países Baixos e da Noruega.
A remuneração foi encerrada em outubro de 2024, mas, desde então, apenas um dos proprietários participantes desmatou a área. No total, foram mais de 20 mil hectares de vegetação protegida.
"Claro que a maioria do desmatamento na amazônia é ilegal, e aí existem as ferramentas jurídicas para lidar com isso. Mas o combate ao desmatamento legal tem que ser na base do incentivo ao produtor", afirma André Guimarães, diretor executivo do Ipam.
"Nós queremos criar uma alternativa para o produtor e também provocar o Estado brasileiro e as forças instituídas para atuar nessa parte do desmate, que é o legal."
Guimarães conta que a seleção dos participantes passou por uma análise do cumprimento de compromissos ambientais, fiscais e financeiros, tanto das propriedades quanto dos proprietários.
"Essa auditoria era feita internamente, pelo corpo de técnicos do Ipam, e depois verificada por um escritório de advocacia externo. Isso restringiu muito o número de fazendas aptas a participar, mas a gente não tem o luxo de errar: é um projeto pioneiro e precisa estar blindado de críticas", diz ele.
Um dos proprietários rurais contemplados foi Carlos Roberto Simoneti, que tem uma fazenda de 17 mil hectares, em Sapezal, região amazônica de Mato Grosso, onde ele produz gado, soja, milho e algodão. Deste total, ele conta que 9.700 hectares são matas, sendo que o excedente da reserva legal (área de preservação obrigatória em propriedades privadas) chega a 4.000 hectares.
Nascido no Paraná, Simoneti se estabeleceu no município mato-grossense em 1974 e relata que há décadas escuta conversas sobre remuneração por serviços ambientais, como é chamado o modelo adotado pelo Conserv, porém nunca tinha visto a ideia sair do papel.
"Quando o pessoal do Ipam veio para cá ninguém acreditou. Eu fui um dos primeiros [participantes]. Meus vizinhos diziam ´você acredita em Papai Noel´", lembra o técnico agropecuário, rindo. "Mas recebemos um dinheirinho bom."
Ele afirma que o projeto foi uma escola. Uma das condicionantes do contrato, por exemplo, era que fossem estabelecidas medidas de prevenção a queimadas. Assim, com uma parcela do dinheiro pago pela preservação, o produtor comprou um caminhão-tanque de combate a incêndio, instalou monitoramento 24h contra o fogo e formou uma brigada, a primeira do tipo na região.
"Essa brigada serve para mim e para os vizinhos. Depois que entramos nesse projeto não existiu mais fogo na nossa área", conta.
Simoneti lamenta que a remuneração do projeto tenha se encerrado, mas conta que continua mantendo a mata em pé —em parte porque tem esperança de que surjam novos recursos, mas também porque pensa nos netos.
"Se a gente desmatar o que fica para as crianças? Eu já derrubei muito", conta. "Temos que pensar no futuro, não é só ganhar em dinheiro."
Em Sapezal, as fazendas participantes compõem um corredor de vegetação nativa com 13 km de extensão, no qual garantem a ausência de fontes de degradação ambiental, como queimadas, caça e exploração madeireira.

Conclua a leitura desta reportagem clicando na Folha de S. Paulo

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