
02/09/2025
Em uma encosta no bairro de São Rafael, a área verde surgia como um oásis em meio aos prédios e casas. A floresta, com animais e pequenos cursos d’água, se misturava aos quintais dos imóveis e sombreava o campo de futebol, principal espaço de convivência da comunidade.
Tratores, contudo, colocaram as árvores abaixo para a construção de um novo empreendimento. As obras foram temporariamente embargadas pelo Inema, órgão ambiental do Governo da Bahia, mas deixaram uma ferida na paisagem urbana.
Longe de ser isolado, o caso simboliza um dos principais desafios de Salvador na área ambiental em meio a um cenário de emergência climática: preservar áreas remanescentes de mata atlântica e ecossistemas considerados sensíveis como manguezais, restingas e dunas.
Salvador tem uma área de 694 quilômetros quadrados, equivalente a menos da metade da cidade de São Paulo. Com 2,4 milhões de habitantes, tem cerca de 3.500 moradores por quilômetro quadrado.
Com escassez de terrenos, a cidade é pressionada por novos empreendimentos imobiliários, pela expansão desordenada, pela venda de terrenos públicos e pela flexibilização da legislação sobre o uso do solo.
O norte da cidade é uma das áreas mais afetadas pelo desmatamento, que avança no entorno dos parques de Pituaçu, Vale Encantado e São Bartolomeu, e áreas da periferia como Mussurunga, Fazenda Grande e São Rafael.
O Diagnóstico da Vegetação do Bioma Mata Atlântica em Salvador, apresentado em 2016 pelo Ministério Público do Estado da Bahia, identificou mais 5.000 áreas remanescentes do bioma, sendo 3.000 em estágio médio de conservação.
O estudo foi incorporado ao PPDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano) de 2016 —o Ministério Público propôs que o mapeamento servisse de baliza para as autorizações de supressão de vegetação, mas isso não aconteceu nas gestões de ACM Neto (União Brasil) e Bruno Reis (União Brasil).
A promotora Cristina Seixas diz que a prefeitura não respeita as estratificações que definem as áreas de vegetação primária e secundária e tem autorizado desmatamento de locais que deveriam ser considerados de restrição. Em muitos casos, sob contrapartidas frágeis, como a doação de mudas de plantas, ela critica.
"Você tem uma quantidade de floresta já produzindo uma série de benefícios, desmata e vai plantar mudas. Mas essas mudas, muitas vezes, não conseguem superar o estágio de amadurecimento para substituir a floresta derrubada", explica a titular da Promotoria de Meio Ambiente.
No bairro de São Rafael, ambientalistas e moradores questionam a autorização dada pela prefeitura para a derrubada de vegetação e apontam a falta de um plano de resgate dos animais, que foram mortos ou começaram a entrar em imóveis da vizinhança.
O desmatamento também afetou o microclima da área, usada para o lazer da comunidade. "Não tem mais mata, não tem mais uma sombra e ar fresco. Isso a gente já perdeu", afirma a educadora Vanessa Ramos, 38, moradora do bairro.
Alguns quilômetros adiante, no bairro Fazenda Grande 4, foram devastadas áreas verdes em uma região que abriga 17 terreiros de candomblé. Nas religiões de matriz africana, as matas são consideradas sagradas, usadas para colocar oferendas, realizar preceitos e coletar folhas.
Um dos símbolos da luta pela manutenção das áreas verdes em Salvador, o Parque Ecológico Vale Encantado, em Patamares, viu surgir empreendimentos em seu entorno e é alvo de uma ofensiva legislativa. Em 2019, a Câmara reduziu a área do parque sob alegação de que continha terrenos privados.
O corredor ecológico possui 61 hectares de área com mata atlântica, restingas e manguezais e atua no controle de temperatura, poluição e escoamento pluvial da cidade. Ativistas defendem que o parque se torne uma área de proteção integral e abrigue o Refúgio da Vida Silvestre de Salvador.
"Salvador é uma cidade que sofre muito com a questão das mudanças climáticas. O regime de chuvas já está totalmente desequilibrado. Por isso é fundamental a existência dessas áreas verdes", afirma a bióloga Tatiana Bichara, voluntária do coletivo SOS Vale Encantado.
Termine de ler esta matéria acessando a Folha de S. Paulo
Onde está a Sueli? Arara monitorada reaparece na Floresta da Tijuca após fuga; equipe tenta fazer recaptura
29/10/2026
Partiu Reciclar: mapa indica pontos de descarte na rede Carrefour
29/10/2026
Governo restabelece regras e libera pesca na foz do Rio Doce após 10 anos do desastre de Mariana
29/10/2026
Áreas de vegetação nativa ficaram menores e mais isoladas no Brasil; país tem 3,4 milhões de fragmentos
29/10/2026
Pará tem mais da metade dos focos de incêndio no Brasil
29/10/2026
Califórnia abriga o maior berçário de polvos de águas profundas
29/10/2026
