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Aumento do nível do mar agrava erosões em Macapá e ameaça população ribeirinha

21/10/2025

As mudanças climáticas levam ameaças à amazônia para além das secas e das queimadas. No Amapá, localizado na costa do Brasil, os efeitos do aumento do nível do mar são preocupantes. As erosões, como uma das consequências do problema, assolam a capital, Macapá.
Os moradores da orla, no complexo do Aturiá, presenciaram suas casas serem engolidas pelo rio Amazonas ao longo dos anos. Com o agravamento do fenômeno, 250 famílias das áreas de maiores riscos foram realocadas, em 2024, para um programa habitacional do governo do estado.
Na visão do geógrafo Genival Fernandes Rocha, da Unifap (Universidade Federal do Amapá), a falta de planejamento climático para adaptação, somada às intervenções urbanas, piora a situação.
O rio avançou, nos últimos anos, cerca de 300 metros sobre o Aturiá. O governo estadual construiu muros de contenção na área para frear a força das águas, mas o problema não terminou por aí, afirma o pesquisador.
As erosões, explica o geógrafo, causam anualmente inundações nos bairros mais próximos da orla, como o Centro. Ele destaca que as ações de saneamento básico, que poderiam amenizar a situação, não acompanham o ritmo acelerado do crescimento populacional em Macapá.
O fluxo dos rios, conta, sobrecarrega os canais da capital, que, apesar de receberem intervenções e ações de limpeza, ainda não suportam o volume de água, somado à sujeira que se acumula com o assoreamento da terra.
"Os canais são uma válvula de escape para as marés. A água entra e sai da cidade, e ali os canais vão assoreando, enchendo de terra. As erosões levam terra para dentro dos canais, o que gera pontos de inundação", destaca.
O geógrafo ressalta que o curso do rio Urucurituba, que funcionava como um canal para levar o deságue do rio Araguari para o oceano Atlântico, mudou a partir de 2010. Um TCC (trabalho de conclusão de curso) do qual Rocha foi orientador apontou que, agora, todo o volume é depositado no rio Amazonas, que, por sua vez, pressiona Macapá.
"O saneamento básico é pouco relacionado a estudos de impacto ambiental", avalia. "No Norte, não há essa cultura de resolver problemas sociais para resolver problemas ambientais. Quando problemas sociais são resolvidos, parte dos problemas ambientais também são."
Procurados pela reportagem, o Governo do Amapá e a Prefeitura de Macapá não responderam sobre planos de adaptação e ações para atender a população afetada.
A CSA (Concessionária de Saneamento do Amapá) disse, em nota, que desde julho de 2022 a cobertura do serviço de abastecimento de água em Macapá saltou de 38% para quase 70%. Já a expansão do serviço de esgotamento sanitário, o índice passou de 5% para 15%.
A concessionária do grupo Equatorial, sócia da Sabesp, afirmou ainda que os serviços públicos de drenagem urbana e resíduos sólidos não estão sobre a sua responsabilidade.
As erosões afetam também um dos mais importantes distritos de Macapá, o arquipélago do Bailique, formado por oito ilhas a cerca de 120 km da sede da capital.
Valdenira Santos, geóloga e pesquisadora no Iepa (Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá), monitora o Bailique desde 1998. Ela relata que a interferência humana com a construção de casas e equipamentos públicos, como escolas e postos de saúde, nas áreas sensíveis e a pecuária em municípios próximos, entre eles Itaubal (AP) e Macapá, agrava a erosão.
"É um problema, mas com duas facetas. Por um lado, a natureza agindo. Esse processo de erosão que em alguns momentos se acelera. Mas tem da parte do ser humano também, ocupando algumas áreas que deveriam ter tido um melhor planejamento ambiental para essa ocupação", disse.
"Neste contexto de mudanças climáticas, todo mundo só fala do aumento de temperatura, mas esquece que o nível do mar sobe junto com o aquecimento dos oceanos e o degelo das calotas polares."
Santos alerta para outros desafios para os moradores do arquipélago: a salinização da água do rio, com o avanço do mar, e a acreção —formação de blocos de terra com os sedimentos oriundos das erosões, que em alguns trechos isolam acessos das ilhas e dificultam a travessia.
"Cada região no globo vai sentir o reflexo das mudanças climáticas de forma diferente. No nosso caso, na Amazônia, nós estamos em zona de baixa elevação, que são regiões litorâneas subemergentes, em um nível médio do mar. Significa que essas regiões que vão sofrer primeiro com qualquer elevação do nível do marinho", destacou.
A série "Desafio Ambiental nas Capitais", às vésperas da COP30 (conferência das Nações Unidas que será realizada em novembro em Belém), aborda problemas que grandes cidades brasileiras enfrentam no campo da sustentabilidade.

Fonte: Folha de S. Paulo

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