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Café do Brasil desmatou área de duas São Paulo em 25 anos, diz pesquisa

23/10/2025

A cafeicultura brasileira foi responsável direta pelo desmatamento de ao menos 313 mil hectares de floresta –tamanho equivalente a duas vezes a cidade de São Paulo– nos últimos 25 anos, segundo levantamento inédito da Coffee Watch.
A organização diz que essa redução de área florestal compromete a qualidade do solo, aumenta os riscos de incêndios e afeta o regime de chuvas nas regiões cafeeiras, o que, entre outros fatores, contribui para a alta no preço do produto.
A pesquisa, obtida no Brasil com exclusividade pela Folha, aponta que, entre 2001 e 2023, a perda florestal em fazendas brasileiras de café somou 737 mil hectares, sendo 313 mil diretamente convertidas em cafezais.
Além disso, mais de 11 milhões de hectares de florestas foram perdidos em municípios onde há cultivo de café. Isso inclui o desmatamento indireto, que é aquele causado pela chegada de infraestrutura e o aumento da população na região.
Considerando desmatamentos para todos os fins, o Brasil perdeu 111,7 milhões de hectares de áreas naturais nos últimos 40 anos (entre 1985 e 2024), segundo o Mapbiomas, organização focada em estudos sobre uso da terra, com base em imagens de satélite.
O Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) diz que outros estudos comprovam que a cafeicultura do país preserva matas nativas além do que é exigido pelo Código Florestal –o levantamento da Coffee Watch trata o desmatamento de forma absoluta, sem analisá-lo à luz da legislação brasileira.
O relatório indica que a maior parte do desmatamento nas fazendas cafeeiras se concentra no Cerrado (77%), sobretudo em Minas Gerais. Outros 20% foram na Mata Atlântica.
Segundo o Cecafé, contudo, 99% das 115.000 propriedades de café de Minas Gerais registradas no Cadastro Ambiental Rural não apresentaram desmatamento significativo após 2008 e que cerca de um terço delas possuem mais vegetação nativa do que o exigido pelo Código Florestal, totalizando 302 mil hectares de excedente florestal.
A pesquisa é lançada em um momento em que o setor tenta demonstrar para os Estados Unidos e para a Europa –os dois maiores mercados do mundo– que o café do Brasil é sustentável, a fim de reduzir entraves à compra do produto.
Uma das barreiras é a lei antidesmatamento aprovada pela União Europeia. Ela proíbe a compra de diversos produtos agrícolas –como o café– que tenham sido cultivados em áreas desmatadas após dezembro de 2020. Na terça (21), a Comissão Europeia propôs uma flexibilização da norma, mas manteve o início da aplicação para 30 de dezembro de 2025.
No que diz respeito à expansão de área cultivada, a pesquisa revela um cenário oposto ao que tem sido divulgado por órgãos oficiais. Segundo a PAM (Produção Agrícola Municipal), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a área colhida de café foi reduzida nas últimas décadas. Passou de aproximadamente 2,5 milhões de hectares em 1990 para cerca de 1,9 milhão em 2023.
Mas, segundo dados de satélites compilados pela Coffee Watch, a área de cultivo cresceu mais de 105% nesse mesmo período, passando de 0,6 milhão para 1,23 milhão de hectares. A organização afirma que as estatísticas oficiais são "baseadas em autorrelato, usando levantamentos feitos com metodologias inconstantes e dados de campo desatualizados".
A pesquisa da Coffee Watch se baseia em dados do MapBiomas, do Hansen Global Forest Change –sistema criado pela Universidade de Maryland, nos EUA– e do SPAM (Spatial Production Allocation Model) –ferramenta do IFPRI (Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar, da sigla em inglês) e do IIASA (Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados).
O relatório associa o desmatamento à instabilidade das chuvas nas regiões cafeeiras nos últimos anos. Há anomalias pluviométricas constantes nessas áreas ao menos desde 2014, principalmente durante os meses fundamentais da florada e do desenvolvimento dos frutos, segundo dados do CHIRPS (Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data).
Em 2014, uma forte seca nas regiões produtoras comprometeu a safra daquele ano. Desde então, oito dos últimos dez anos registraram déficits pluviométricos, segundo o relatório.
Com isso, as safras ficaram aquém do esperado e os estoques globais caíram, o que contribuiu para a alta de preços que o setor enfrenta há pelo menos dois anos.
A aridez causada pela estiagem ainda contribui para a incidência de incêndios florestais. "O cinturão cafeeiro do Brasil, principalmente no Cerrado e nas zonas de transição, é agora uma das regiões mais propensas a incêndios do país", diz o levantamento.
Por fim, o relatório conclui que é urgente não apenas garantir o cumprimento de compromissos com desmatamento zero, mas também restaurar o que foi perdido e migrar para sistemas agroflorestais regenerativos.
A Coffee Watch é uma organização baseada nos Estados Unidos dedicada a analisar e denunciar eventuais violações socioambientais na cadeia produtiva do café.

Fonte: Folha de S. Paulo

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