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Desmatamento na amazônia eleva em 3°C a temperatura da superfície na estação seca

22/01/2026

O desmatamento na amazônia está provocando mudanças regionais significativas no clima em comparação a áreas com cobertura florestal acima de 80%. A perda da vegetação leva ao aumento da temperatura da superfície, à diminuição da evapotranspiração, além da redução da precipitação na estação seca e do número de dias de chuva.
Os resultados fazem parte de uma pesquisa realizada com base em dados de satélite e publicada na revista Communications Earth & Environment no final de novembro.
O trabalho aponta que regiões altamente desmatadas (cobertura florestal inferior a 60%) compartilham semelhanças climáticas com áreas de transição entre floresta úmida e savana. Isso porque entre os impactos observados estão uma temperatura de superfície, em média, 3°C maior durante a estação seca; com evapotranspiração e quantidade de chuvas 12% e 25% menores, respectivamente, em relação a regiões com alta cobertura florestal.
Além disso, foram observados 11 dias a menos de chuva, em média, onde a cobertura florestal foi inferior a 60%. Ou seja, o desmatamento impactou não somente a quantidade como a distribuição das chuvas.
Como resultado dessa condição climática mais seca e quente, a floresta pode enfrentar maior degradação, levando ao aumento da mortalidade das árvores e à suscetibilidade a incêndios florestais. Esse cenário compromete a permanência de espécies mais sensíveis da floresta úmida, enquanto favorece a dominância de outros tipos de nativas oportunistas e gramíneas exóticas, comprometendo a biodiversidade.
Para os cientistas, os achados evidenciam a urgência de controlar o desmatamento e restaurar áreas degradadas, visando preservar a resiliência climática da amazônia e das atividades econômicas que dependem diretamente do clima, como a agricultura.
"O estudo mostra que as florestas tropicais têm um impacto gigantesco no clima, com consequências para diversos setores da sociedade, tanto para o bem-estar das populações como para atividades econômicas. Por isso, o debate sobre a importância das florestas deve ter um olhar mais abrangente, para além da questão ambiental. Precisamos trabalhar com uma visão de desenvolvimento nacional, com ação coordenada e integrada entre diversos setores da sociedade", defende o pesquisador Luiz Aragão, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Um dos autores do trabalho, Aragão é membro da coordenação do Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais e participou de painéis durante a COP30, a conferência do clima das Nações Unidas, em Belém, para discutir temas ligados a emissões de gases de efeito estufa e impactos do aquecimento global.
De acordo com o pesquisador do Inpe Marcus Silveira, primeiro autor do artigo, o estudo corrobora cientificamente a importância de manter a cobertura florestal em, no mínimo, 80% em propriedades rurais da amazônia, como prevê o Código Florestal.
A legislação estabelece regras para uso da terra e proteção ambiental dentro de propriedades privadas, nas chamadas reservas legais, exigindo que uma parte da área rural seja mantida com vegetação nativa.
Nos nove estados da Amazônia Legal é obrigatória a cobertura de vegetação nativa em 80% da área dos imóveis situados na floresta, em 35% no Cerrado e 20% em campos gerais —o mesmo porcentual para o restante do país.
"As regiões desmatadas ficam prejudicadas com condições mais secas e quentes, que também acabam afetando a produção agrícola. A própria Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura [FAO] lançou na COP30 um documento mostrando que as florestas são aliadas da agroindústria, e não inimigas. Por meio de uma extensa revisão da literatura científica, destaca os vários benefícios climáticos que as florestas promovem, contribuindo com a produtividade e resiliência agrícola. Nosso trabalho vai muito nessa linha também", afirma Silveira, que juntamente com diversos autores brasileiros colaborou com o relatório "Climate and ecosystem service benefits of forests and trees for agriculture".

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