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Robôs descem ao fundo do mar contra a poluição

31/03/2026

Grande parte das iniciativas de limpeza dos oceanos ainda parte de uma premissa limitada: a de que o problema está na superfície. A lógica é simples, recolher o plástico visível e resolver a questão. No entanto, a realidade é bem mais complexa, e é nesse contexto que robôs começam a ganhar protagonismo. A maior parte do lixo marinho não flutua; ela se acumula no fundo do oceano, permanecendo fora do alcance das estratégias convencionais de coleta.
Neste cenário surge o SeaClear2.0, projeto criado para avançar além das soluções tradicionais e enfrentar diretamente o acúmulo de resíduos submersos, dando continuidade a esforços anteriores que focavam principalmente na superfície. “Uma enorme quantidade de lixo acaba no mar”, afirma Bart De Schutter, professor da Universidade de Tecnologia de Delft e coordenador do projeto SeaClear e de seu sucessor. “Muitos projetos visam o lixo da superfície, mas nós focamos no fundo do mar. É importante remover o lixo de lá, porque ele pode contaminar o meio ambiente.”
Quando o plástico chega ao fundo do oceano, ele começa a se degradar lentamente, fragmentando-se em partículas cada vez menores até se transformar em microplásticos. Esses fragmentos acabam infiltrando-se nas cadeias alimentares e nos recursos hídricos, tornando-se extremamente difíceis de remover. Por isso, a retirada dos resíduos antes desse processo é considerada essencial. O SeaClear2.0 integra a missão da União Europeia “Restaurar os nossos oceanos e águas”, que tem como meta reduzir o lixo marinho em cerca de metade até 2030.
A operação do sistema começa acima da linha d’água: embarcações de superfície não tripuladas são enviadas às áreas-alvo, enquanto drones aéreos realizam o mapeamento inicial. Eles identificam e registram a localização de detritos como garrafas, pneus, cercas metálicas e partes de embarcações, preparando o terreno para a etapa de remoção. Na sequência, entram em ação robôs subaquáticos capazes de coletar os resíduos por meio de garras ou sistemas de sucção. Esses equipamentos conseguem diferenciar lixo de elementos naturais como pedras, plantas e vida marinha, uma tarefa especialmente desafiadora em ambientes de baixa visibilidade. Para objetos mais pesados, uma garra inteligente acoplada a um guindaste é utilizada.
Outro componente em teste é uma balsa autônoma que funciona como depósito flutuante. Ela recebe os resíduos coletados pelos robôs e os transporta até a costa, evitando múltiplas viagens individuais e tornando o processo mais eficiente. “Nos testes, já removemos pneus de borracha, cercas de metal e partes de navios”, diz De Schutter. “Usando um guindaste na embarcação de superfície, podemos levantar objetos ainda mais pesados.”
Antes da implementação desse tipo de tecnologia, a remoção de lixo submerso dependia exclusivamente de mergulhadores. O trabalho exigia a fixação manual de cabos debaixo d’água e o transporte dos detritos até a superfície, em um processo lento, caro e fisicamente exigente, exatamente o tipo de operação que o sistema robótico pretende substituir. Os primeiros testes foram realizados em Marselha e na Alemanha. As próximas etapas acontecerão em Veneza, Dubrovnik e Tarragona, locais escolhidos por apresentarem condições variadas no fundo do mar, o que permitirá testar a robustez da tecnologia em diferentes cenários. Apesar dos avanços, o sistema ainda está em desenvolvimento. “Ainda não chegamos exatamente onde queremos”, afirma Yves Chardard, CEO da Subsea Tech, empresa francesa parceira no projeto. “Mas não estamos longe. O objetivo agora é aprimorar a tecnologia.“. A conclusão do SeaClear2.0 está prevista para o final de 2026. Até lá, a expectativa é que equipes de limpeza operem em conjunto com autoridades locais em diferentes regiões da Europa. Durante o desenvolvimento, surgiu ainda uma aplicação inesperada: os sistemas capazes de detectar detritos enterrados também mostraram potencial para localizar minas terrestres não detonadas, remanescentes de guerras anteriores, uma utilidade prática que não estava nos planos iniciais do projeto.

Fonte: CicloVivo

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