
07/04/2026
Ao abrir uma caixa de madeira com um filhote de cascavel, quando tinha entre 10 e 12 anos, Breno Almeida não imaginava que ali também se abria seu próprio destino.
Ele era uma criança em Goiás com uma curiosa fascinação por serpentes. E cresceu escutando que esses animais eram perigosos e que deveria ter medo — o que só aumentava sua vontade de saber mais sobre eles.
Ao ir para o zoológico fazer a entrega da cascavel resgatada pelo pai, Breno se lembra de ter pensado: "Eu quero ter vários bichos desses para cuidar, e o povo não matar, fazer uma espécie de zoológico de cobras".
Hoje, ele é biólogo e diretor do Centro Amazônico de Herpetologia, no Pará, que tem como uma de suas propostas mudar a visão negativa que as pessoas têm sobre determinados animais, como as serpentes — algo que tende a prejudicar sua conservação.
O centro funciona como zoológico e recebe diferentes animais machucados que não podem retornar para seu habitat, inclusive mamíferos e aves, mas o foco são as serpentes e anfíbios. O espaço é também um criadouro comercial para venda de veneno das serpentes.
Milena Almeida, bióloga responsável técnica pelo centro e esposa de Breno, conta que muitos visitantes chegam ao local com a visão de que todas as cobras são peçonhentas, o que traz sensação de repulsa pelos animais. Por isso, o local oferece visitas guiadas e interação sensorial com esses animais para quebrar estigmas em relação a eles.
Almeida explica que as serpentes fazem parte da chamada fauna não carismática, apelido dado aos animais que não costumam ter muita simpatia da população — e atraem pouco financiamento para pesquisas.
Espécies não carismáticas não têm sua conservação garantida e sua perpetuação pode enfrentar diversos desafios, mas estudos mostram que animais que não detêm o apreço público tendem a receber menos recursos, além de serem menos pesquisados e um alvo mais comum da população.
Um estudo publicado em 2025 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) mostra que a distribuição de financiamento da conservação de espécies não costuma se basear na ameaça de extinção, e sim em seu carisma e tamanho.
Os mais beneficiados são os mamíferos de grande porte.
De US$ 1,9 bilhão voltado para medidas de conservação, US$ 1,6 bilhão vai para os animais vertebrados. Isso corresponde a 84% do total. Aos invertebrados, grupo que inclui, por exemplo, insetos, aracnídeos, moluscos, restam 6,6%.
Entre os vertebrados, de 70% a 85% dos recursos ficam restritos a pássaros e mamíferos. Os répteis, grupo ao qual pertencem as cobras, receberam 5,8% do total para os vertebrados.
A distribuição de pesquisas científicas entre grupos de animais também apresenta viés, mostra um artigo publicado na revista Nature em 2017. Conhecer as espécies é parte fundamental para construção de medidas de conservação.
O estudo dividiu 626 milhões de ocorrências no Sistema Global de Informação sobre Biodiversidade (GBIF), portal de dados abertos sobre biodiversidade, em 24 grupos diferentes de animais.
O trabalho concluiu que mais da metade das ocorrências eram sobre aves, embora elas representem apenas 1% das espécies catalogadas no portal. Os aracnídeos têm três vezes mais espécies, mas representaram apenas 2,17 milhões de ocorrências, uma das menores dentro do GBIF.
Os répteis, por sua vez, apareceram em 5 milhões de ocorrências, enquanto os anfíbios, em 3,9 milhões. Os antozoários, que agrupam corais e anêmonas, foi o grupo que menos apareceu, com 1 milhão de ocorrências.
Animais não carismáticos também têm maiores chances de sofrerem atropelamentos.
Um estudo brasileiro publicado em 2014 fez um experimento com aranhas, serpentes, pintos e, no grupo de controle, folhas. Foram utilizados modelos de plásticos realistas dos animais, que foram colocados em áreas com menor tráfego de três rodovias diferentes.
As taxas de atropelamento das aranhas e das serpentes foram maiores até do que das folhas. Isso indica, segundo o estudo, que há certa intencionalidade no atropelamento dos dois animais. Os pintos foram os únicos resgatados por humanos.
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