
07/04/2026
Créditos de carbono não são todos iguais. Mas, na prática, muitas decisões são tomadas como se fossem. Quando uma empresa entra no mercado de carbono, ela pode estar em dois lugares completamente diferentes: respondendo a uma obrigação regulatória ou tomando uma decisão estratégica.
O problema é que esses dois contextos são frequentemente tratados como se fossem iguais. E não são. Na prática, eles operam com instrumentos diferentes. No mercado regulado, empresas lidam com permissões de emissão. No mercado voluntário, entram os créditos de carbono.
Mas, na comunicação, tudo isso acaba sendo chamado da mesma coisa. E é aí que a confusão começa.
Essa distinção ficou mais evidente para mim recentemente, a partir de uma das aulas do MBA em Soluções Baseadas na Natureza da Universidade do Carbono.
O curioso é que, embora seja uma diferença estrutural, ela ainda aparece pouco na forma como o mercado de carbono é comunicado.
Quando a linguagem simplifica demais, a decisão também simplifica. Essa diferença não é apenas técnica. Ela define se o carbono está sendo usado como ferramenta de conformidade ou como alavanca real de transformação.
No mercado regulado, empresas operam sob limites claros de emissão. Existe meta, teto e penalidade. Se não conseguem reduzir suas emissões internamente, precisam adquirir permissões adicionais ou mecanismos equivalentes. Não é uma escolha estratégica. É uma exigência do sistema.
Aqui, carbono não é narrativa. É regra.
Esse modelo cria pressão real para redução de emissões. De acordo com a European Commission, o sistema europeu de comércio de emissões, por exemplo, já contribuiu para uma redução de cerca de 37% nas emissões dos setores cobertos desde 2005
Aqui, emitir tem custo. E esse custo muda comportamento.
No mercado voluntário, o cenário é outro. Não existe obrigação. Empresas decidem compensar suas emissões, se posicionar como neutras e investir em projetos. Aqui entram os créditos de carbono. Segundo a Ecosystem Marketplace, esse mercado movimentou cerca de US$ 2 bilhões em 2022. É relevante, mas funciona com outra lógica.
Sem regra, entra o critério. E nem sempre ele está claro. Sem regulação direta, a qualidade das decisões passa a depender de quem compra.
Na prática, essas duas realidades acabam sendo misturadas. Empresas comunicam “neutralidade” sem diferenciar contexto, instrumento ou impacto.
Sem obrigação, é possível compensar sem reduzir de forma relevante, escolher créditos de baixa integridade e construir narrativa sem alterar o modelo.
Uma investigação da The Guardian com a Die Zeit apontou que mais de 90% dos créditos de REDD+ avaliados tinham baixa integridade climática. Isso não invalida o mercado, mas deixa claro que nem toda compensação representa impacto real.
O Brasil ocupa uma posição única nessa discussão. Segundo o SEEG, cerca de 70% das emissões brasileiras vêm do uso da terra, desmatamento e agropecuária. Aqui, a principal frente de mitigação não está na indústria. Está no território. No Brasil, carbono não é só emissão. É uso da terra.
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