
01/06/2026
Grande parte da Europa Ocidental enfrenta uma intensa onda de calor nesta primavera, com temperaturas excepcionalmente elevadas, desde o Reino Unido e a Irlanda, no norte, passando por Alemanha e França, até chegar à Espanha e à Itália.
O clima atípico para a estação é resultado de um "domo de calor". Esse sistema atmosférico de alta pressão, forte e de deslocamento lento, vindo do norte da África, está aprisionando o ar quente sobre o continente europeu, como uma tampa sobre uma panela de água fervente.
De acordo com o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, esse tipo de sistema meteorológico tornou-se mais comum na Europa nos últimos 25 anos, impulsionando ondas de calor mais frequentes e intensas.
"Temperaturas nessa escala já foram excepcionais até mesmo no auge do verão", afirmou Friederike Otto, professora de ciência do clima no Imperial College London, em comunicado. "Esse calor recorde tem a marca das mudanças climáticas."
Ainda é cedo para determinar o quanto esse episódio extremo de calor foi intensificado pelo efeito estufa provocado pelas emissões de combustíveis fósseis.
Ainda assim, análises anteriores de mais de meia dúzia de ondas de calor na Europa desde 2003, conduzidas por cientistas do clima da organização World Weather Attribution, sediada no Reino Unido e cofundada por Otto, mostram que eventos extremos se tornaram "muito mais prováveis e mais intensos devido às mudanças climáticas induzidas pelo homem".
O mais recente relatório Estado do Clima na Europa, divulgado em abril, destacou que ao menos 95% do continente registrou temperaturas anuais acima da média em 2025. Ondas de calor intensas, com temperaturas superiores a 30°C, foram sentidas até ao norte do Círculo Polar Ártico, e a temperatura da superfície do mar atingiu o "nível mais alto já registrado".
"A Europa é o continente que aquece mais rapidamente, e os impactos já são severos", afirmou Florian Pappenberger, diretor do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, uma das instituições por trás do relatório.
Na prática, a Europa está aquecendo duas vezes mais rápido do que a média global. A temperatura média já subiu 2,5°C em relação aos níveis pré-industriais do fim do século 19. No mundo, o aumento médio registrado é de 1,4°C.
Esse aquecimento acelerado se deve, em parte, à localização geográfica. A Europa está conectada ao Ártico, única região do planeta que aquece ainda mais rapidamente.
O aumento médio de temperatura na região do Polo Norte já ultrapassa 3,3°C, segundo dados do Copernicus. Isso ocorre, em parte, porque o Oceano Ártico, mais escuro e livre de gelo, absorve mais luz solar do que o gelo, que a reflete.
Esse processo, conhecido como efeito albedo, também ocorre em outras partes da Europa. Áreas do continente que antes permaneciam congeladas durante todo o ano ou até o fim do verão, como regiões de alta altitude nos Alpes, estão cada vez mais sem neve. Com o solo mais escuro refletindo menos radiação solar de volta ao espaço, o aquecimento se intensifica.
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