
21/07/2026
Quando o inverno chega ao Brasil, a natureza entra em movimento. Predadores reorganizam seus horários de caça para aproveitar melhor as temperaturas, onças ampliam seus deslocamentos em busca de alimento e aves percorrem longas distâncias em busca de melhores condições. Essas adaptações mostram como diferentes espécies respondem às mudanças da estação e reforçam a importância da conservação dos ambientes naturais.
Embora o inverno brasileiro seja menos rigoroso do que em países de clima temperado, a redução das temperaturas, as mudanças na duração dos dias e a menor disponibilidade de alimento são suficientes para alterar a rotina de diferentes espécies, que respondem com estratégias de sobrevivência variadas.
“Essas adaptações fazem parte dos ciclos naturais da biodiversidade brasileira, elas dependem da conservação dos ambientes onde ocorrem. Áreas naturais preservadas garantem corredores para migração, oferta de alimento, locais de reprodução e condições para que esses processos continuem ocorrendo ano após ano”, explica o gerente de conservação da biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Emerson Oliveira.
Na Mata Atlântica, estudos mostram que espécies predominantemente noturnas concentram suas atividades na primeira metade da noite durante o inverno. Já animais de hábito diurno, como a cutia (Dasyprocta azarae), a irara (Eira barbara) e o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), aproveitam os períodos mais quentes do dia para buscar alimento.
Segundo Roberto Fusco, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e coordenador do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, essas adaptações refletem a capacidade da fauna de responder às mudanças naturais do ambiente.
“As baixas temperaturas durante o inverno podem afetar a disponibilidade de recursos e, consequentemente, o comportamento de algumas espécies. As onças, por exemplo, podem se movimentar mais durante o inverno, já que os recursos ficam menos disponíveis e elas precisam buscá-los mais ativamente. Outros predadores como o mão-pelada (Procyon cancrivorus) e o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) passam a se alimentar mais de roedores durante a estação”, explica.
O inverno também altera o comportamento da onça-pintada. Em regiões como o Pantanal, onde a estação coincide com o período seco, a redução do volume de rios e lagoas concentra presas em poucos pontos de água, favorecendo emboscadas.
As aves também adaptam sua rotina. Espécies como o suiriri (Tyrannus melancholicus) e o andorinhão-do-temporal (Chaetura meridionalis) deixam regiões do Sul e Sudeste em direção a áreas mais quentes do país.
Com menos insetos disponíveis durante o inverno, muitas aves precisam percorrer distâncias maiores para encontrar alimento, enquanto outras passam a formar bandos mistos para aumentar a proteção contra predadores e melhorar a busca por alimento.
A jacutinga (Aburria jacutinga), historicamente, também realizava movimentos sazonais entre áreas serranas e regiões mais baixas da Mata Atlântica, comportamento hoje limitado pela redução de seu habitat.
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