
06/08/2026
Em meio à expansão do avistamento de baleias-jubarte no litoral paulista, uma cena chamou a atenção em junho deste ano: um indivíduo jovem cercado por diversas embarcações. "Fiquei revoltada. Tinha barco de turismo, barco de recreio, jet ski", relembra a bióloga Mia Morete, 56.
A sócia-fundadora do VIVA Instituto Verde Azul divulgou em redes sociais um vídeo da cena, filmada de seu observatório, na ponta da ilha. O registro viralizou. "Na semana seguinte, tinha barco com Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade], polícia ambiental, fiscais da prefeitura, todos fiscalizando."
O avistamento de baleias tem uma série de regras a serem seguidas para não perturbar os animais, criadas pelo Ibama. Para representantes de institutos, é necessário melhorar a fiscalização para assegurar o cumprimento dessas regras.
"A norma brasileira é muito boa porque ela é preventiva", afirma José Truda Palazzo Júnior, diretor do Instituto Baleia Jubarte (IBJ). "Agora, é claro que em um local que concentra muita gente e, apesar de ter todo um trabalho, de instrução, de educação, sempre tem algumas pessoas que fazem errado, como aconteceu nesse dia."
À época, uma nota divulgada pela APqC (Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo) manifestou preocupação sobre o possível "turismo predatório" de baleias no litoral norte paulista. A atividade de observação, embora "ferramenta importante de educação ambiental", pode causar estresse aos animais, apontou a entidade.
Palazzo diz que não há consenso de que a atividade turística tenha efeito prejudicial à biologia e ao comportamento dos bichos. "Em cinco décadas de turismo de observação e pesquisa sobre a atividade, não se observou nenhum impacto significativo sobre as espécies", afirma ele.
Na avaliação dele, o ponto a melhorar é o esforço de fiscalização. "O que mais precisa é aumentar a fiscalização, principalmente em regiões com excesso de embarcações particulares, como é o caso do litoral norte de São Paulo."
Para Anna Lobo, do WWF-Brasil, a falta de investimento é o principal gargalo na fiscalização marinha, pois o monitoramento embarcado é custoso. Um engajamento da sociedade, por meio da ciência cidadã, pode ajudar a garantir uma prática de turismo sustentável.
"Infelizmente, o monitoramento no Brasil e a fiscalização demandam recursos e pessoas, e nos últimos anos a gente viu pouco investimento nisso. Quando olhamos para o mar, isso é ainda mais complicado porque é muito caro fazer o monitoramento e a fiscalização embarcada", avalia.
A atividade é fiscalizada no país por diferentes órgãos. Em uma mesma área podem atuar, em conjunto, agentes da prefeitura (municipal), PM Ambiental (estadual), agentes do Ibama e da Marinha (federais).
Em nota, a Prefeitura de Ilhabela diz que o órgão recebeu, via FalaBR, cinco denúncias de descumprimento das normas de avistamento em 2025, que se transformaram em autos de infração gerados em Ubatuba. Neste ano, por enquanto, houve quatro denúncias, mas nenhuma foi convertida em autuação devido à falta de materialidade.
Sobre o episódio de junho, a administração municipal afirma que, assim que tomou conhecimento das imagens, encaminhou as informações aos órgãos competentes. Diz, ainda, que o episódio "reforçou a necessidade de ampliar as ações que já vinham sendo desenvolvidas pelo município", entre as quais o monitoramento embarcado, o uso de drones, a presença de biólogos em campo e a fiscalização em terra.
A gestão acrescenta que, quando uma irregularidade é identificada, "as informações são encaminhadas aos órgãos responsáveis, como o Ibama, a Marinha do Brasil e a Polícia Ambiental". Denúncias podem ser feitas pelo WhatsApp no número (12) 99177-5369.
Veja quais são as regras acessando a Folha de S. Paulo
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