
25/08/2026
A segurança hídrica de milhões de pessoas no Sudeste pode enfrentar novos desafios nas próximas décadas. Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) aponta que as secas na Bacia do Rio Paraíba do Sul podem se tornar mais longas e severas ao longo deste século.
A região analisada tem papel estratégico no abastecimento de mais de 20 milhões de pessoas e envolve áreas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O sistema também é responsável por transferir água para regiões metropolitanas do Rio e de São Paulo, incluindo o abastecimento pelo sistema Guandu, no Rio de Janeiro.
Os pesquisadores destacam que o cenário projetado não significa uma previsão de falta de água, mas indica uma necessidade maior de planejamento e adaptação para lidar com períodos prolongados de estiagem.
O principal resultado do estudo é uma mudança no comportamento das secas: elas podem ocorrer com intervalos maiores, mas, quando acontecerem, tendem a durar mais tempo e provocar impactos mais intensos sobre os reservatórios.
Um dos pontos analisados foi a região de Paraibuna, no trecho superior da bacia, onde estão reservatórios importantes para a regularização do sistema.
Segundo a pesquisa, a duração média das secas registrada no período histórico analisado era de aproximadamente oito meses. Em um dos cenários projetados para o período entre 2061 e 2100, esse tempo poderia chegar a cerca de 22 meses.
De acordo com os pesquisadores, períodos mais prolongados de estiagem podem dificultar a recuperação dos reservatórios e reduzir a margem de segurança para enfrentar novos eventos de pouca chuva.
“Mesmo que as secas ocorram com menor frequência, quando acontecem tendem a durar mais tempo e a reduzir de forma mais persistente os níveis dos reservatórios”, explicou Lucas Pereira de Almeida, pesquisador da Uerj e um dos autores do estudo.
Outro ponto de atenção é a região de Santa Cecília, em Barra do Piraí (RJ), onde ocorre a transferência de parte da água do Paraíba do Sul para a Bacia do Guandu, responsável pelo abastecimento de grande parte da Região Metropolitana do Rio.
No cenário de maiores emissões de gases de efeito estufa analisado pelos pesquisadores, o índice utilizado para medir a severidade das secas aumenta significativamente até o fim do século.
Segundo os autores, esse indicador combina fatores como duração da estiagem e redução das chuvas, mas não representa uma estimativa direta de quantos litros de água deixarão de chegar aos municípios.
A pesquisa aponta que secas mais severas podem exigir operações mais restritivas dos reservatórios, redução das vazões disponíveis para transferências e maior pressão sobre os recursos hídricos.
Para reduzir incertezas, os pesquisadores compararam diferentes modelos climáticos com registros históricos de secas na região. Segundo o estudo, essa metodologia permitiu diminuir as diferenças entre as projeções sobre duração, intensidade e intervalo entre os eventos.
Ainda assim, os autores ressaltam que os resultados representam tendências climáticas e não previsões exatas de quando uma seca específica ocorrerá.
A professora Rosa Formiga, do Departamento de Engenharia Sanitária e do Meio Ambiente da Uerj, afirma que o desafio não está apenas nas mudanças climáticas, mas também em fatores que aumentam a vulnerabilidade dos sistemas de abastecimento, como crescimento da demanda, poluição e degradação dos mananciais.
Entre as medidas apontadas pelos pesquisadores estão a revisão das regras de operação dos reservatórios para períodos mais longos de estiagem, ampliação do monitoramento, redução de perdas de água, diversificação das fontes de abastecimento e criação de planos de contingência.
Fonte: Diário do Porto
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