UERJ UERJ Mapa do Portal Contatos
Menu
Home > Atualidades > Notícias
Cientistas usam ´impressão digital´ da água para mapear alterações nas chuvas da Amazônia

01/09/2026

As secas históricas de 2023 e 2024 na amazônia não apenas reduziram o volume dos rios, mas alteraram a própria composição da chuva na região. É o que revela um monitoramento diário feito em Manaus (AM), que utilizou isótopos —uma espécie de "impressão digital" da água— para demonstrar como o El Niño e o aquecimento do Atlântico Norte afetaram a origem da umidade e a dinâmica das precipitações.
O estudo liderado por pesquisadores da Unesp (Universidade Estadual Paulista) —um dos primeiros a retomar o uso de técnicas isotópicas em estudos hidroclimáticos na amazônia em mais de 30 anos—sugere que os isótopos podem sinalizar com antecedência a chegada de períodos de seca prolongados.
Isótopos são versões mais leves ou pesadas dos átomos de um mesmo elemento químico. As moléculas de água (H2O) são formadas de átomos dos elementos hidrogênio e oxigênio. A maioria dos átomos de hidrogênio possui um núcleo atômico feito de apenas um próton. Os núcleos de uma pequena fração deles, entretanto, são duas vezes mais pesados, compostos de um próton e um nêutron.
Da mesma maneira, a maioria dos núcleos de oxigênio é formada de oito prótons e oito nêutrons, embora alguns poucos tenham nove ou dez nêutrons. Algumas moléculas de água são, portanto, mais leves, evaporando com um pouco mais de facilidade, enquanto outras, mais pesadas, condensam primeiro.
"As proporções entre os isótopos leves e pesados são alteradas pela evaporação e condensação da água ao longo do ciclo hidrológico", explica a geógrafa Rafaela Rodrigues Gomes, doutoranda do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp em Rio Claro. Ela é a primeira autora do trabalho publicado em junho na revista Hydrological Processes, baseado em sua dissertação de mestrado, com bolsa da Fapesp.
Seu orientador no mestrado e no doutorado é o coordenador do Larhia (Laboratório de Recursos Hídricos e Isótopos Ambientais da Unesp), o geólogo Didier Gastmans. "Cada condição de temperatura, umidade e outras variáveis meteorológicas produz diferenças na proporção dos isótopos, que podem ser utilizadas como uma impressão digital da água", explica Gastmans.
Os estudos sobre a variação isotópica da chuva na Amazônia Central começaram nos anos 1960, realizados principalmente por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo, em parceria com a Agência Internacional de Energia Atômica. Amostras mensais de chuva foram coletadas em Manaus, ainda que com interrupções em alguns anos, entre 1965 e 1990. A falta de financiamento encerrou o programa.
"Só agora, a partir de 2020, com esforços do nosso grupo, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia [Inpa], do Serviço Geológico do Brasil e de outras instituições, estamos implementando uma nova rede de monitoramento na região", conta Gastmans.
No novo estudo, pesquisadores do Inpa coletaram 207 amostras diárias de chuva em Manaus, entre março de 2023 e fevereiro de 2025. As amostras foram divididas para serem analisadas em diferentes laboratórios: o Larhia, o Centro de Isótopos Estáveis do Instituto de Biociências da Unesp, em Botucatu, e o Grupo de Hidrologia de Traçadores da Universidade do Texas em Arlington, Estados Unidos.
Para entender sua relação com os fenômenos atmosféricos, Gomes comparou os dados isotópicos com medidas de variáveis do tempo atmosférico local, obtidas por uma estação meteorológica instalada junto ao coletor de chuva. Ela também cruzou essas informações com dados e modelos meteorológicos globais fornecidos pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo e pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos.
A pesquisadora concluiu que, entre os meses chuvosos de março, abril e maio, as proporções isotópicas são controladas pela chamada Zona de Convergência Intertropical (conhecida pela sigla ZCIT), uma grande faixa de nuvens que circunda a Terra próxima ao Equador, responsável por 30% da precipitação do mundo. Nessa época do ano, a ZCIT se desloca mais para o sul, favorecendo massas de ar úmido vindas do Atlântico Norte. Essas massas produzem sucessivos episódios de chuva ao longo de sua trajetória, do oceano até Manaus, aumentando a proporção de isótopos leves.

Conclua a leitura desta reportagem acessando a Folha de S. Paulo

Novidades

Helicóptero lança ´chuva´ com 4 toneladas de sementes para reflorestar área de Mata Atlântica e recuperar palmeira ameaçada no ES

13/10/2026

Cerca de quatro toneladas de sementes de palmeira-juçara (Euterpe edulis) foram lançadas de um helic...

Desmatamento cai 30% no cerrado e sobe 9% na amazônia em setembro

13/10/2026

Os índices de desmatamento caíram no cerrado e subiram na amazônia em setembro. A área sob alerta na...

Queimadas quase quadruplicam no Amazonas, e Manaus fica sob fumaça; entenda o cenário

13/10/2026

Manaus amanheceu nesta sexta-feira (9) mais uma vez coberta de fumaça. A Defesa Civil disparou um al...

FAB envia aviões para ajudar no combate a queimadas no Amazonas

13/10/2026

A FAB (Força Aérea Brasileira) vai enviar dois aviões para ajudar no combate aos incêndios florestai...

Manaus atinge níveis graves de poluição por fumaça de queimadas

13/10/2026

A qualidade do ar em Manaus chegou a níveis graves para a população e fez a Defesa Civil disparar al...