
22/09/2026
Parker ainda não havia aberto os olhos, quando uma mão o retirou do ninho.
Era uma manhã de domingo em novembro de 2018, na Reserva Nacional Tambopata, nas profundezas da Amazônia peruana.
O filhote, ainda sem penas, era frágil e estava abaixo do peso. Tinha um pouco mais que o tamanho de um dedo médio.
Ele era o mais jovem da ninhada de quatro filhotes de araracanga (Ara macao, também conhecida como arara-vermelha-pequena). Por isso, com quase certeza, ele estava condenado a morrer de fome.
Na base da árvore, estava a cientista peruana Gabriela Vigo-Trauco, responsável por planejar o sequestro.
Ela estuda estas aves há mais de duas décadas e descobriu que as araracangas deixam seus filhotes mais jovens morrerem de fome intencionalmente.
A cientista da Universidade A&M do Texas, nos Estados Unidos, concluiu que quase todos os terceiros e quartos filhotes dos ninhos com vários ovos não sobrevivem e que cerca de 25% dos segundos filhotes a nascerem enfrentam o mesmo destino.
Esta técnica brutal de criação de filhotes, no passado, era uma estratégia de sobrevivência. Mas, agora, é um imenso entrave para a recuperação desta espécie cuja população está em declínio.
A caça ilegal e a extração de madeira já deixaram uma de suas subespécies perto da extinção, no México e na América Central. Mas, em 2017, Vigo-Trauco iniciou uma forma pouco difundida de missão de resgate, que a levou ao filhote que ela batizou de Parker.
Seu objetivo era recrutar casais de araracangas selvagens para serem pais adotivos dos filhotes condenados. E, ao convencer as aves selvagens a assumir a tarefa, ela esperava testar uma tábua de salvação para os filhotes negligenciados no Peru — e para a espécie como um todo.
É impossível ignorar as araracangas. Sua plumagem carmesim se destaca contra o verde da floresta e é possível ouvir seus gritos muito antes da observação visual.
Cada fêmea pode depositar até quatro ovos por estação. Mas, normalmente, apenas um ou dois filhotes voam do ninho.
"Os pais, particularmente a mãe, abandonam" os filhotes mais jovens, explica Vigo-Trauco. Ela é uma das diretoras da Sociedade das Araras (The Macaw Society, em inglês), a organização conservacionista peruana que revelou pela primeira vez este comportamento, instalando câmeras nos ninhos em 2007.
"O filhote fica com frio e grita", ela conta. "Quando o pai chega, ele alimenta a mãe, o primeiro e o segundo filhote e vai embora, deixando o terceiro aos berros."
Não havia bullying dos irmãos, nem falta de alimento. Por que, então, os pais negligenciam os filhotes mais jovens?
Vigo-Trauco acredita que os pais não conseguem cuidar bem dos filhotes em diferentes estágios de desenvolvimento.
Apenas quatro ou cinco dias de diferença entre a eclosão dos ovos podem fazer uma enorme diferença. Os filhotes exigem regimes alimentares e até temperaturas do ninho imensamente diferentes.
Os pais são forçados a escolher, segundo ela. Se eles se esforçarem demais para alimentar a todos, existe o risco de que nenhum deles sobreviva.
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