
17/11/2015
O Rio Capibaribe inspirou muitas poesias de João Cabral de Melo Neto; o Rio Amazonas margeia até hoje os romances de Milton Hatoum; o Rio São Francisco inunda o grande sertão de Guimarães Rosa; e não seria exagero dizer que até o Rio Carioca — e todo um Rio de Janeiro, vá lá — passa sob as palavras de Machado de Assis.
O Rio Doce também. O chamado “Nilo brasileiro” fez parte do nosso imaginário cultural na poesia, na prosa e em canções populares.
Braço forte da maior bacia hídrica do Sudeste, com 853 quilômetros de extensão que banham 29 cidades de Minas Gerais e outras 11 do Espírito Santo, o Rio Doce foi completamente destruído pelo rompimento das barragens da mineradora Samarco, em Mariana, há dez dias. Com o desastre, os rejeitos químicos da empresa inundaram seu leito, que já é considerado “morto” por autoridades ambientais do Ministério Público do Espírito Santo e do Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Minas Gerais.
O Rio Doce, tal como era, só sobrevive nas letras a seguir. Coletados pelo GLOBO como uma homenagem póstuma ao rio, os trechos têm o Rio Doce como referência ou cenário — em tons bucólicos, picarescos ou críticos.
Em 1781, o luso-brasileiro Frei Santa Rita Durão já listava o Rio Doce entre as paisagens brasileiras no poema épico “Caramuru”, que conta a história do náufrago português Diogo Álvares Correia, o Caramuru do título, que viveu entre os índios tupinambás.
Rubem Braga fala da porção capixaba do rio nas crônicas “Barra do Rio Doce”, de 1949, e “O lavrador”, de 1954. Mineiro de Caratinga, o cartunista e escritor Ziraldo dedicou, em 1996, o livro infantil “O menino do Rio Doce” à criança que um dia fora, crescida à beira do seu leito (“O menino tinha certeza de que havia nascido no dia em que viu o rio”).
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