
12/01/2016
Ao constatar que o orelhão, isolado num matagal, ainda dá linha, o pedreiro aposentado Amaurino Gonçalves, de 68 anos, se surpreende e abre um sorriso. Ele se acostumou, nos últimos anos, a viver rodeado pela morte. Campo Grande, bairro de Teresópolis onde mora, é um cenário pós-apocalíptico, onde pontos de ônibus, lojas e casas deram lugar a ruínas, pedras e vegetação. Tudo foi abaixo com a enxurrada que desabou na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, a “mais longa” da vida de Amaurino. Quando finalmente amanheceu, parte dos moradores da cidade, de Petrópolis e de Friburgo tinha virado sobrevivente da tragédia que assolou a Região Serrana, deixando 918 mortos e 215 desaparecidos. Foi o maior desastre natural da história do país.
Amaurino lembra-se de tudo. Aponta o indicador trêmulo para mostrar cada uma das casas dos vizinhos que morreram, o comércio, a estrada engolida pela encosta. Conta da criança morta que, carregada pelo pai desolado, o fez chorar pela única vez durante a tragédia. O pedreiro permaneceu morando no sobrado que ocupava com a família na época do desastre. Nenhum parente morreu, mas também não quis ficar: ele hoje vive apenas com cinco cachorros abandonados. As letras “CGD” (sigla de Campo Grande), escritas em vermelho no imóvel, indicam que aquela casa, condenada pela Defesa Civil, já deveria ter sido derrubada.
Atualmente, só em Petrópolis, Teresópolis e Friburgo, 91 mil pessoas, como o pedreiro, correm perigo por ocuparem áreas de risco. A maioria está em locais que sequer foram devastados pela enxurrada, que esta semana completa cinco anos. Do total, ao menos 20 mil vivem em pontos de risco alto ou iminente. Ou seja, estão sujeitas a enfrentar desastres mesmo no caso de chuvas não muito intensas.
A matéria na íntegra pode ser lida em O Globo
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