
21/03/2017
A casa deles é a copa das árvores que ficam em florestas, inclusive as urbanas, como a da Tijuca. O que não impede que cheguem a quintais, jardins e varandas de residências localizadas perto de matas. Por isso, o risco de ser picado pelos transmissores da febre amarela silvestre — os mosquitos das espécies dos gêneros Haemagogus e Sabethes — não existe só para quem frequenta áreas verdes, explica o infectologista e especialista em entomologia médica Aloísio Falqueto, que, desde janeiro, investiga o surto da doença em Minas Gerais e no Espírito Santo.
Professor do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo, Falqueto estuda há 39 anos insetos que transmitem doenças. Ele diz que o atual surto no país tem mudado o que se sabe sobre os mosquitos da febre amarela silvestre. O especialista destaca, porém, que esses vetores não se afastam muito das florestas. Os Haemagogus e Sabethes não aparecem em praças e árvores de rua, por exemplo. Tampouco voam longe, a ponto de alcançarem a maioria dos apartamentos — a não ser os imóveis contíguos a florestas como a da Tijuca e a do Maciço da Pedra Branca.
— Não há evidência de que os Sabethes voem mais que 100 metros dentro de uma mata. Nela, são comuns. Vivem também nas bordas, mas não entram na casa de alguém ou num apartamento, a não ser que haja uma varanda encostada nas árvores da mata. Mesmo assim, não ficam por lá, como o Aedes aegypti. No entanto, podem picar uma pessoa e sair — afirma o infectologista.
Pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Ricardo Lourenço, um dos maiores especialistas do país em insetos transmissores de doenças, diz que cidades com matas urbanas, como o Rio de Janeiro, sempre tiveram esses mosquitos silvestres.
— Imagine casas de Santa Teresa próximas à Floresta da Tijuca. Muitos desses imóveis ocupam encostas e ficam no mesmo nível das copas de várias árvores, o que cria condições para que mosquitos silvestres entrem pelas janelas ou varandas. Mas não existe motivo para pânico porque, para a febre amarela silvestre ser transmitida, os mosquitos precisam estar com uma carga viral considerável, e não há qualquer indício nesse sentido. A população não tem motivo para ficar alarmada — afirma Lourenço.
A diferença entre a febre amarela urbana e a silvestre é justamente o mosquito transmissor. O vírus é o mesmo; a doença é uma só. Mas a do tipo urbano é transmitida pelo Aedes aegypti, que infesta cidades e cuja “vítima” preferida é o ser humano.
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