
28/03/2017
As mutações que causam câncer em geral têm origem em hereditariedade e meio ambiente, mas, agora, um novo trabalho publicado na revista “Science” enfatiza a importância de uma terceira fonte para essas alterações: o acaso. De acordo com o estudo, dois terços das mutações que levam a variados tipos de câncer são atribuídos a erros aleatórios que ocorrem em células saudáveis. O matemático Cristian Tomasetti e o geneticista oncológico Bert Vogelstein, ambos da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, chegaram a essa conclusão com base na análise do sequenciamento do genoma humano e de dados epidemiológicos de 32 tipos de câncer.
O trabalho deles mostrou, por exemplo, que apenas 5% das mutações identificadas nos pacientes com câncer de pâncreas foram herdadas geneticamente; 18% ocorreram devido a fatores ambientais, como o tabagismo; e as 77% restantes foram resultado de erros aleatórios no DNA, aparentemente inexplicáveis. Considerando-se apenas o câncer de próstata, os médicos chegaram a estimar que 95% das mutações que resultaram na doença foram adquiridas ao acaso.
No total, levando em conta os 32 tipos de câncer analisados, os pesquisadores estimaram que 66% das mutações se deviam à “má sorte”. O ambiente teria influenciado 29% dos erros no DNA; e a hereditariedade, somente 5%.
— Claro que estas são estimativas — disse Cristian Tomasetti, em uma entrevista coletiva realizada ontem. — Mas é o melhor que podemos fazer hoje. E significam uma mudança de paradigma na forma como pensamos o câncer.
A equipe de pesquisadores também concluiu que existe uma forte correlação entre a incidência de câncer e um alto número de divisões de células-tronco normais no corpo. Essa associação já havia sido mostrada por eles em 2015, partindo de dados apenas dos EUA. Mas, neste novo estudo, foram analisadas informações de 423 bancos de dados sobre câncer presentes em 69 países de cinco continentes. Isso comprova uma correlação universal, que ocorre independentemente das características do lugar e da população.
Essas conclusões evidenciam o que muitos pacientes e médicos já haviam percebido: em vários casos não há como prevenir o câncer. E, exatamente por isso, esses achados reforçam a necessidade de se detectar a doença no início e intervir já nesse período — abordagem chamada de “prevenção secundária”, quando a doença já está instalada, mas é possível eliminá-la logo no início.
A matéria pode ser lida em O Globo
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