
20/06/2017
O manto de gelo do Oeste da Antártica, uma massa de gelo sobre terra firme maior que o México, enfrentou um substancial derretimento de sua superfície durante o verão de 2015-2016 no Hemisfério Sul, o que coincidiu com um dos mais intensos fenômenos do El Niño registrados nos últimos 50 anos. A afirmação é de estudo baseado na mais amplas e detalhadas medições das condições atmosféricas na região desde os anos 1960, publicado nesta quinta-feira no periódico científico “Nature Communications”.
Segundo os pesquisadores, as poças de neve derretida foram vistas cobrindo uma boa parte da plataforma de gelo de Ross, uma grossa placa de gelo flutuante que canaliza cerca de um terço do gelo que flui do manto do Oeste da Antártica para o oceano, numa área equivalente a mais do dobro do estado americano da Califórnia. O derretimento, dizem, teria sido provocado pela entrada na região de massas de ar quente carregando muita umidade e uma extensa cobertura de nuvens empurradas pelo intenso El Niño.
Ainda de acordo com os cientistas, embora as nuvens normalmente ajudem a esfriar a superfície do planeta ao refletir a radiação solar de volta para o espaço, elas também podem prender o calor entre sua base e o chão. E pelas medições meteorológicas feitas pelo Aware (sigla em inglês para “Experimento ARM de Radiação no Oeste da Antártica”, liderado pelo Instituto de Oceanografia Scripps da Universidade da Califórnia em San Diego), teria sido justamente este o efeito mais pronunciado no verão de 2015-2016.
- Tivemos uma sorte extraordinária de termos podido instalar equipamentos avançados no Oeste da Antártica justo antes da ocorrência deste grande evento de derretimento – conta Dan Lubin, físico do Instituto Scripps e cientista-chefe do Aware. - Estas medições atmosféricas vão ajudar os geofísicos a desenvolverem modelos melhores para projetar como a calota polar da Antártica pode responder às mudanças climáticas e a influência da elevação do nível do mar.
Segundo os cientistas, o evento ocorrido no verão 2015-2016 é preocupante porque os El Niños tendem a ser mais comuns com o aquecimento global, com o derretimento da superfície das plataformas de gelo aumentando sua instabilidade, já alimentada pelo derretimento causado pela intrusão de águas mais quentes por baixo delas. Além disso, o manto de gelo do Oeste da Antártica descansa sobre uma camada de rochas que fica abaixo do nível do mar e é protegida pelas plataformas flutuantes de gelo nas suas bordas. Assim, o derretimento destas plataformas deverá acelerar o fluxo do manto em direção ao oceano. Se a calota polar da Antártica derreter completamente, o que provavelmente aconteceu há cerca de 125 mil anos, no último período interglacial da Terra, sua massa é suficiente para elevar o nível médio dos oceanos em três metros.
Fonte: O Globo
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