
03/08/2017
Do lixo o carrinheiro João Carlos de Lima tirou a carne que assou para a janta e os poucos reais que pagaram a conta de luz do mês. A catadora Maria de Oliveira, a Lia, bancou estudo aos seis filhos e montou uma coleção de taças de vidro, na qual ninguém põe a mão. Marli Tereza da Cruz, também catadora, alicerçou sua primeira casa própria — um barracão feito de vigas sujas, pregos baratos e lona, montado dentro do extinto lixão de Paranaguá, no litoral do Paraná.
Os três trabalham hoje com a coleta, a separação e a destinação de materiais recicláveis e, além das suas próprias vidas, movimentam toda a cadeia produtiva do lixo no estado, ao lado de outros milhares. Eles são o elo entre o que jogamos fora e o que é reutilizado por empresas recicladoras.
Nos municípios paranaenses, há em média um catador para cada 1 mil habitantes, estima o Ministério Público (MP-PR). Boa parte deles está na rua, sem condições dignas de trabalho.
"Todos [catadores] são escravos, absolutamente escravos. Puxam um carrinho como se fossem um animal. São estágios de completo abandono, trabalhando individualmente, coletando de manhã para ganhar o almoço. As pessoas não sentem esse problema, não observam o catador. É ele que movimenta todo o processo do lixo reciclável", diz Saint-Clair Honorato Santos, procurador de Justiça de Direitos Difusos do Ministério Público do Paraná (MP-PR).
Para dar condições a quem trabalha com o lixo, a melhor maneira tem sido uni-los em cooperativas organizadas, para que trabalhem em conjunto com o poder público, afirma o procurador.
"A cooperativa é uma empresa que vai prestar serviço ao município, como se fosse uma terceirizada. É responsabilidade do município viabilizar essas cooperativas e associações, melhorando o meio de trabalho e deixando que os próprios catadores gerenciem o serviço", opina Saint-Clair.
Geralmente, as cooperativas recebem material de empresas parceiras, ruas e casas e fazem a separação. O que é reciclável vai para a prensa, controlada pelos próprios cooperados, e seguem para compradores.
Lia, de 43 anos, trabalha há mais de 30 anos com a separação de lixo. A maior parte do tempo foi nas ruas, arrastando um carrinho e catando o que encontrava nas calçadas. Há dois anos, porém, passou a integrar uma cooperativa organizada, no bairro Boqueirão, em Curitiba, da qual se tornou presidente.
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