
09/10/2018
Lacrifagia.
A palavra é diferente e pode gerar muitas dúvidas, mas parte delas começaram a ser solucionadas por Leandro Moraes, biólogo e herpetólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus, AM.
No ano passado, durante uma expedição noturna em áreas de florestas de várzea, de Manaus a Tefé, o especialista em anfíbios e répteis se deparou com um comportamento curioso: uma mariposa se alimentando das secreções oculares de uma fêmea de solta-asa-do-norte.
“Encontrar uma ave dormindo já não é algo tão corriqueiro durante o trabalho de campo, então só esse encontro já foi muito especial. Fiquei duplamente surpreso ao notar que a mariposa estava inserindo continuamente a probóscide no olho da ave”, conta Leandro, que observou e registrou o momento.
A observação feita pelo biólogo foi a terceira relatada em todo o mundo e a primeira no Brasil. Já o flagrante é “debutante” no mundo científico, sendo o primeiro registro em vídeo da lacrifagia entre mariposa e ave.
Intrigado com o flagrante, o pesquisador buscou explicações para o comportamento. Foi na dificuldade em encontrar relatos que surgiu a ideia de colaborar para a ciência. “Relatei esse caso em uma nota científica e discuti as possíveis causas e consequências para a ave e para a mariposa”, diz.
A partir daí, perguntas e respostas surgiram para desvendar o “mistério” do registro. Isso porque o hábito de se alimentar das lágrimas de vertebrados é algo comum entre os insetos, entretanto, eles preferem animais lentos e plácidos para conseguirem se nutrir sem serem perturbados, situação improvável quando se trata de aves.
Outra questão levantada foi o por quê da mariposa estar complementando a dieta salina com as lágrimas da ave, já que a espécie vive em um dos ambientes mais produtivos da região amazônica. “Para isso, chegamos a duas respostas. Ou o objetivo da mariposa seja complementar a obtenção de proteínas ou ela realmente esteja em busca de sódio”, diz Leandro, que relaciona a necessidade do inseto com as adaptações climáticas da região.
“A busca pelo sódio pode estar relacionada à escassez em determinado período ou espaço, causada pela variação e dinamismo que esse tipo de floresta está sujeita. Tudo isso em virtude do alagamento anual”, completa.
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