
30/08/2022
"Quando encerraram a pescaria eu quis morrer porque era isso que eu sabia fazer. Sabia como trabalhar as amêijoas. Eu sabia tudo", lembra Arturo Agüero, um pescador de La Coronilla, um pequeno povoado pesqueiro do Uruguai.
Era 1994 e, diante das enormes mortandades que dizimaram as populações de amêijoa amarela, as autoridades uruguaias optaram pelo encerramento total dessa pescaria no Departamento de Rocha para evitar sua extinção local.
Essa diminuição não foi mais que uma consequência direta do aumento sistemático da temperatura superficial do mar que havia sido registrado por vários anos, particularmente depois de passar de um período frio para um quente durante a década de 1990.
O aquecimento dos oceanos resulta, em parte, do aumento das emissões de gases de efeito estufa, em especial dióxido de carbono, que retém energia solar dentro da atmosfera, o que gera uma expansão tropical que é impulsionada por gradientes de temperatura que avançam para os polos em latitude média.
Esse aumento de temperatura altera a intensidade e a direção dos ventos, o que repercute na circulação e correntes de água.
Essas mudanças a longo prazo reduziram as camadas de gelo polar, alteraram os regimes de precipitação e implicaram um aumento no nível do mar.
O aquecimento dos oceanos mostra um sinal claro no oceano Atlântico Sul Ocidental, particularmente sobre a plataforma continental do sul do Brasil, Uruguai e norte da Argentina, uma das maiores zonas quentes marítimas do mundo.
A bacia adjacente do rio da Prata também está sujeita a um aquecimento intenso. A corrente do Brasil evidencia um deslocamento consistente para o polo, e o avanço das águas quentes para a vertente no nordeste uruguaio tem sido reforçada pelo aumento da velocidade e frequência dos ventos para a costa.
As pescas artesanais nos países em desenvolvimento são particularmente vulneráveis aos efeitos da mudança climática.
O aquecimento dos oceanos tem sido responsável pela morte em massa de espécies com afinidade por água fria, a crescente ocorrência de marés vermelhas (florescimento de algas nocivas) e uma mudança de espécies de águas frias para espécies de águas quentes.
Assim, as comunidades pesqueiras que dependem dos recursos marinhos se veem cada vez mais ameaçadas pelo aumento da temperatura do oceano.
No caso da amêijoa amarela de La Coronilla, as mortandades em massa ocasionaram o encerramento da pesca, no qual os pescadores se viram forçados a diversificar seus meios de subsistência em setores locais da economia, como construção, agricultura e extração de madeira, ou se viram obrigados a migrar.
Isso mostra que o sistema socioecológico da zona como um todo, incluindo governança, sociedade e economia, não estava preparado para fazer frente a mudanças drásticas.
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