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Brasil está longe da meta de zerar desmatamento ilegal até 2028

01/09/2022

Faz quase um ano que o ministro do meio ambiente, Joaquim Leite, assinou a Declaração sobre Florestas em Glasgow, comprometendo o Brasil a zerar o desmatamento ilegal até 2028. No entanto, a perda de vegetação seguiu crescente desde a COP26 (26ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas), realizada na Escócia entre outubro e novembro de 2021.
Só o primeiro semestre de 2022 registrou a maior área sob alerta de desmatamento em sete anos de medição na Amazônia Legal, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Para especialistas, se a tendência atual se mantiver, não há previsão de que a meta para 2028 seja cumprida.
"O que vem acontecendo nos últimos oito anos é um aumento, e não uma diminuição do desmatamento", diz Cláudio Almeida, coordenador do programa de monitoramento da Amazônia e demais biomas do Inpe. "É preciso reverter a curva antes de pensar em baixar. Se nada mudar, não vamos atingir essa meta."
Desde 2018, a região amazônica vem sofrendo aumentos consecutivos de desmate. Nos últimos três anos do governo Bolsonaro, a média do desmatamento foi 75% maior do que a média dos dez anos anteriores (2009-2018).
"A partir de 2012, o desmatamento começa a oscilar", diz Stela Herschmann, especialista em política climática do Observatório do Clima. "Vemos um aumento, mas ele é inconstante. É em 2018 que há um salto. Desse momento em diante, chega-se a um outro patamar que não se via há mais de uma década."
Para Herschmann, o que existe é um projeto de governo que permaneceu inalterado, independentemente dos compromissos públicos assumidos. "Em menos de cinco anos revertemos o avanço que havíamos conquistado em mais de uma década de trabalho. Isso não vai ser fácil de resgatar."
Procurado, o Ministério do Meio Ambiente não comentou especificamente a meta para 2028. Em nota, a pasta afirma que "o governo federal tem agido de maneira extremamente contundente na proteção ao meio ambiente e no combate aos crimes ambientais". "Em toda a Amazônia Legal, a redução no desmatamento foi de 2,16%, entre agosto de 2021 e julho de 2022, de acordo com dados do Deter", diz.
Almeida defende que é necessário haver um investimento pesado para reverter a situação do desmatamento no país. "A receita que temos aplicado hoje não apresenta os resultados que precisamos alcançar, e isso é nítido", diz. "O desmatamento não está caindo. É preciso buscar outros caminhos para melhorar esse desempenho."
A Declaração sobre Florestas foi o primeiro documento do tipo que o Brasil subscreveu, o que, segundo Herschmann, pode ser explicado pelo fato de que, mesmo nos melhores momentos da política ambiental nacional, o desmatamento sempre foi visto como uma questão menos urgente.
"Claro que ter assinado essa declaração foi uma coisa boa, um passo importante", afirma Herschmann. "O problema é que sabemos que o governo nunca teve realmente a intenção de cumpri-la."
Para Maycon Yuri Nascimento Costa, cientista político especializado em políticas ambientais, diante da redução de recursos e do número de servidores de órgãos como o Ibama e o ICMBio, assim como o congelamento do Fundo Amazônia, o compromisso assumido pelo Brasil na COP26 é questionável.
"Sem servidores para fiscalizar, com ameaças e até com morte de quem luta para barrar o desmatamento e o garimpo ilegal, como podemos esperar que o Brasil possa, algum dia, alcançar essa meta?", opina.
Embora o acordo assinado na COP26 não seja legalmente vinculante, lembra Costa, outros países, assim como organismos internacionais, possuem ferramentas para pressionar o Brasil.
"Existem ações econômicas muito fortes. Em 2021, por exemplo, supermercados europeus ameaçaram o boicote a produtos brasileiros provenientes de áreas de desmatamento", recorda.
Na COP27, próxima conferência do clima da ONU, que será realizada em novembro em Sharm el-Sheikh, no Egito, a imagem abalada do Brasil deve inspirar preocupação, diz o cientista político.
"Ou o Brasil assume compromissos viáveis e com diálogo, ou continuaremos sendo vistos com desconfiança e como uma ameaça ao meio ambiente."

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