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´Prever extremos como chuvas em SP é desafio para a ciência´, diz Carlos Nobre

28/02/2023

Em São Sebastião, cidade turística aos pés da Serra do Mar, no litoral norte paulista, a busca por desaparecidos não tem prazo para acabar. Defesa Civil e voluntários trabalham sob condições difíceis nos bairros mais atingidos.
As chuvas intensas registradas nas primeiras horas do domingo 19 de fevereiro deixaram ao menos 46 mortos. Centenas estão desabrigados.
O maior volume de chuva registrado na região em 24 horas —683 milímetros, no município de Bertioga— é o novo recorde no sistema meteorológico brasileiro. Antes dele, no ano passado, 534,4 milímetros haviam sido registrados na tragédia de Petrópolis, que deixou 241 mortos há um ano. Em São Sebastião, foram 627 mm em 24 horas no último fim de semana.
Carlos Nobre, climatologista aposentado do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que esteve envolvido na criação do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), em 2011, reforça o alerta que a ciência vem dando há anos: eventos climáticos extremos desse tipo estão ficando mais frequentes com as mudanças climáticas.
"No planeta inteiro, todos esses fenômenos extremos estão acontecendo com muito mais frequência, e a ciência não deixa nenhuma dúvida que eles não estariam acontecendo com essa frequência se o planeta não estivesse sofrendo o aquecimento global", afirma Nobre em entrevista à DW.
Segundo o climatologista, modelos matemáticos existentes mundo afora não conseguem capturar recordes de chuva como o do litoral de São Paulo, mas apenas reproduzir eventos extremos das últimas décadas.
"Essas chuvas no litoral norte paulista foram três vezes maiores do que os modelos de previsão indicaram", detalha Nobre. "É um desafio muito grande para a ciência ver como fazer com que os modelos climáticos consigam prever esses recordes que estão acontecendo todos os anos em todo o planeta."
Na região atingida no litoral paulista, não há sistema de sirene que comunique o risco à população e que indique o momento de abandonar o local.
"Quando o alerta mais grave foi emitido, por volta da meia-noite de domingo, se houvesse tocado alguma sirene, as pessoas poderiam ter saído de casa. Naquele horário ainda não tinham acontecido deslizamentos", lamenta Nobre.

Por que as chuvas registradas no litoral norte de São Paulo na madrugada do último domingo, que deixaram ao menos 46 mortos, são consideradas um evento climático extremo? Trata-se de um evento extremo porque, de fato, foi um recorde de chuvas nos municípios de Bertioga e São Sebastião. Foram mais de 600 milímetros que caíram num espaço de nove horas. É um recorde registrado pelos milhares de pluviômetros do Cemaden em dez anos, esse é o recorde de chuva em menos de 24 horas.
É um fenômeno extremo que foi previsto pelo Cemaden, que alertou todas as Defesas Civis do estado de São Paulo. Nunca tinha acontecido um volume de chuva tão alto num espaço de tempo tão curto. Em alguns momentos, como às 2h da madrugada de sábado para domingo, chegou a chover 120 mm em uma hora. É um recorde no sistema meteorológico brasileiro.

O quanto se pode relacionar o que aconteceu com as mudanças climáticas? Hoje já existem vários sistemas no mundo —e seria importante ter um desses no Brasil— que procuram fazer o que se chama de atribuição de causa. Um evento extremo como esse poderia ser absolutamente natural, que não tem nada a ver com o aquecimento global, ou só pode ser explicado em função do aquecimento?
Esses estudos fazem simulações com modelos matemáticos do sistema meteorológico. Por exemplo: eles fazem uma simulação de como seria o clima sem nenhuma influência do aumento da concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera. Então o modelo mostra como aconteceriam eventos extremos como esse do litoral paulista em todo o mundo, ou seja, naturais, associados com o clima do planeta.
Os cientistas fazem esse mesmo tipo de simulação adicionando o aumento da concentração dos gases de efeito estufa, que é o que aconteceu no planeta nos últimos cem anos. E aí a simulação mostra o quanto os eventos extremos aumentariam nesse cenário. É uma maneira de se atribuir causa.
Isso foi feito após a chuva que causou mais de 120 mortes em Recife em 2022. Imediatamente, um grupo da Inglaterra fez essa simulação e mostrou que a intensidade e frequência daquele tipo de evento extremo se deve ao aquecimento global. Não aconteceria se o planeta não estivesse se aquecendo.

Termine de ler a entrevista na Folha de S. Paulo

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