
11/05/2023
A busca por energias mais limpas, um dos principais desafios para reduzir emissões de gases-estufa e enfrentar as mudanças climáticas, também vai custar recursos ao planeta. Oito bilhões de seres humanos detêm, juntos, um poder de impacto que vai deixar as marcas dessa decisão —seja ela tomada ou não.
É o que afirma o geólogo Colin Waters, secretário do AWG, sigla em inglês para Grupo de Trabalho do Antropoceno. Formado por 40 cientistas, o coletivo se prepara para apresentar, em junho, uma proposta para o "golden spike", ponto em algum lugar da Terra que servirá de base para a definição do Antropoceno, a chamada "época dos humanos".
Para os cientistas do AWG, a nova época geológica da Terra é marcada pela atividade humana, com a expansão da produção industrial e a elevação do consumo em cadeia global. Seu ponto de início é debatido desde 2009 pelos pesquisadores do grupo.
Waters, professor na Universidade de Leicester, no Reino Unido, tem sido o porta-voz do AWG para traduzir as implicações de uma nova época no planeta e por que isso é importante. Nesta semana, ele visita o Brasil pela primeira vez, para participar da reunião magna de 2023 da Academia Brasileira de Ciências, no Rio de Janeiro.
O evento acontece no Museu do Amanhã, com entrada grátis. Waters dará palestra às 11h30 desta quarta (10).
"Nosso pequeno grupo de trabalho sabe que há evidência científica [do Antropoceno]. Tudo que podemos fazer é usar isso para guiar nossas decisões. Como isso vai ser usado pelas pessoas é papel de políticos", afirma Waters, em entrevista exclusiva à Folha. "Mas você começa a se perguntar: como lidamos com esse planeta que está mudando?"
Popularizado no início dos anos 2000 pelo vencedor do Nobel Paul Crutzen, o Antropoceno seria uma nova época geológica, que substituiria o atual Holoceno, iniciado após a última era do gelo, há 11,7 mil anos.
A década de 1950 se firmou nas discussões como o ponto de início do Antropoceno em razão do aumento generalizado da queima de combustíveis fósseis, da realização de testes nucleares feitos a céu aberto, espalhando quantidades de plutônio pelo mundo, além das detonações de bombas de hidrogênio.
A ideia inicial de Crutzen sobre o começo do Antropoceno apontava para a revolução industrial, na Inglaterra, no século 18. Mas, naquela etapa, diz Waters, a revolução acontecia na Europa, e para se espalhar levaria boa parte de um século.
"Quanto mais investigamos, mais perto chegamos da década de 1950. Todos passavam por grandes mudanças na economia e no grau de industrialização. Temos a China decolando entre os anos 1950 e 1960", explica. "E mesmo a Amazônia estaria ao alcance da contaminação atmosférica por partículas da queima de combustíveis fósseis."
E por que não em 1949? "Porque há uma gradação", diz o geólogo. "As evidências apontam para uma mudança drástica no meio do século 20."
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