
26/10/2023
No fundo do mundo, as bordas flutuantes de uma das enormes camadas de gelo que cobrem a Antártida estão enfrentando uma ameaça invisível, que poderia contribuir para o aumento do nível do mar em todo o mundo. Elas estão derretendo por baixo.
À medida que o planeta se aquece, volumes maiores de água quente estão banhando a parte inferior das plataformas de gelo da Antártida Ocidental, as grandes línguas de gelo nas extremidades das geleiras. A imensa massa dessas plataformas impede que o gelo terrestre flua mais rapidamente para o mar aberto.
Portanto, à medida que as plataformas derretem e afinam, mais gelo terrestre se move em direção ao oceano, contribuindo eventualmente para a elevação do nível do mar. Reduzir as emissões de combustíveis fósseis pode ajudar a retardar esse derretimento, mas os cientistas não tinham certeza de quanto.
Agora, pesquisadores no Reino Unido fizeram os cálculos e chegaram a uma conclusão preocupante: uma certa quantidade de derretimento acelerado está essencialmente garantida. Mesmo que as nações limitem o aquecimento global a 1,5°C isso não faria muito para deter o afinamento. Permanecer abaixo de 1,5°C é o objetivo mais ambicioso do Acordo de Paris e, no momento, é improvável que seja alcançado.
"Parece que podemos ter perdido o controle do derretimento da plataforma de gelo da Antártida Ocidental ao longo do século 21", disse uma das pesquisadoras, Kaitlin A. Naughten, cientista oceânica do British Antarctic Survey, em uma entrevista coletiva. "Isso muito provavelmente significa algum nível de aumento do nível do mar que não podemos evitar."
As descobertas de Naughten e seus colegas, que foram publicadas na segunda-feira (23) no periódico Nature Climate Change, se somam a uma série de prognósticos sombrios para o gelo no lado oeste do continente congelado.
Dois dos glaciares de movimento mais rápido da região, Thwaites e Pine Island, têm perdido vastas quantidades de gelo para o oceano há décadas. Os cientistas estão tentando determinar quando as emissões de gases de efeito estufa podem levar a camada de gelo da Antártida Ocidental a um "ponto de virada" a partir do qual seu colapso se torna rápido e difícil de reverter, colocando em perigo as faixas costeiras em todo o mundo nos próximos séculos.
Mesmo assim, a redução das emissões de gases que retêm calor ainda poderia evitar que quantidades ainda maiores de gelo antártico sejam perdidas para os mares. A camada de gelo da Antártida Oriental contém cerca de dez vezes mais gelo do que a Antártida Ocidental, e estudos anteriores sugerem que ela é menos vulnerável ao aquecimento global, mesmo que algumas pesquisas recentes tenham contestado essa visão.
"Ainda podemos salvar o restante da camada de gelo da Antártida", disse Alberto Naveira Garabato, oceanógrafo da Universidade de Southampton que não estava envolvido na nova pesquisa, "se aprendermos com nossa inação passada e começarmos a reduzir as emissões de gases de efeito estufa agora".
Naughten e seus colegas focaram na interação entre as plataformas de gelo e a água no mar de Amundsen, que é a parte do oceano Austral que se choca contra as geleiras Thwaites e Pine Island.
Os pesquisadores primeiro utilizaram simulações computacionais para estimar as mudanças na temperatura do oceano e o consequente derretimento das plataformas de gelo que ocorreram lá no século 20.
A reportagem na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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