
11/01/2024
As bacias hidrográficas do Cerrado estão secando e perdendo sua capacidade de abastecer alguns dos principais rios brasileiros, como o Madeira, o Paraná, o Araguaia, o Tocantins, o Xingu e o São Francisco. O fenômeno resulta de uma combinação de fatores, relacionados à diminuição do volume de chuvas e ao aumento da perda de água no solo por evaporação e pela transpiração das plantas, combinação conhecida como evapotranspiração.
A conclusão consta de um artigo publicado no início de novembro por pesquisadores brasileiros na revista científica Regional Environmental Change.
Sob coordenação do engenheiro agrônomo Rodrigo Lilla Manzione, docente da Faculdade de Ciências, Tecnologia e Educação da Unesp, campus de Ourinhos, a equipe de estudiosos analisou dados de satélites coletados ao longo das últimas duas décadas sobre os regimes de chuva, as perdas de água pela evapotranspiração e as variações na temperatura do solo nas regiões onde estão localizadas 13 bacias hidrográficas do bioma Cerrado. O objetivo era estimar quanto de água está entrando nessas regiões com as chuvas, e quanto está saindo devido à evapotranspiração.
Os autores também se debruçaram sobre dados do Projeto de Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil (MapBiomas), que acompanha as mudanças da cobertura da vegetação nativa e do uso da terra no país, e do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que fornece taxas anuais de desmatamento no bioma.
As análises constataram uma redução nas chuvas em todas as regiões do Cerrado nos últimos 20 anos. E foi uma queda bastante expressiva; só para comparar, enquanto o acumulado médio de chuva geral em 2001 foi de aproximadamente 1.400 milímetros (mm), em 2019 o índice estava em cerca de 1.000 mm.
Por sua vez, o índice médio de evapotranspiração, que até 2001 era de pouco mais de 600 mm por ano, subiu para quase 1.000 mm em 2019. “Ou seja, cada vez mais está saindo mais água e entrando menos no Cerrado”, destaca Manzione, um dos autores do artigo publicado na Regional Environmental Change.
O problema começou a aparecer no bioma entre os anos de 2005 e 2008, e só tem se intensificado. “Em algumas regiões, a diferença entre a quantidade de água que entra com as chuvas e a que sai por meio da evapotranspiração já é negativa”, afirma o pesquisador, referindo-se às bacias situadas na porção centro-norte do Cerrado, próxima à fronteira com o semiárido.
Em paralelo, o bioma já enfrenta os impactos das mudanças climáticas. Hoje, a temperatura média do Cerrado durante os meses de estiagem está entre 2,2 oC e 4 oC mais quente do que nos anos 1960 — o que facilita a ocorrência de incêndios devastadores. Segundo maior bioma brasileiro, com uma área de 2 milhões de quilômetros quadrados (km2) que abrange quase 24% do território nacional, o Cerrado funciona como um grande coletor de água.
A predominância de paisagens abertas, que ocupam quase 40% de seu território, permite que as águas das chuvas sejam absorvidas pelo solo com mais facilidade, abastecendo o lençol freático, as bacias hidrográficas e os rios. Essas águas depois se espalham por diversas regiões do país. Estima-se, por exemplo, que o Cerrado forneça cerca de 70% da água do rio São Francisco, que percorre o sudeste e o nordeste e 47% da do rio Paraná, que percorre o estado de mesmo nome e abastece a usina hidrelétrica de Itaipu.
Parte dessa água que vem com as chuvas é devolvida para a atmosfera por meio da evapotranspiração, ajudando a produzir mais pluviosidade na região. Essa interação gera um ciclo perene muito eficiente de reaproveitamento da água. “Nossos resultados, nesse sentido, são preocupantes, pois indicam que esse ciclo está desequilibrado”, afirma o engenheiro ambiental César de Oliveira Ferreira Silva, primeiro autor do artigo.
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