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´Quando o resíduo está valorizado, ele não vai parar no mar´, diz gerente de circularidade do Pacto Global da ONU

11/07/2024

Fragmentos de plástico, bitucas de cigarro, pedaços de isopor, tampinhas de garrafas plásticas e embalagens de delivery de alimentos. Esses são os cinco itens mais encontrados nos mares do Brasil durante as coletas amostrais que o projeto Blue Keepers, do Pacto Global da ONU, realiza periodicamente em quase 20 pontos do país.
Entre rios, mares, lagoas e manguezais, o projeto reuniu um inventário com 55 mil itens classificados por categoria de material e, quando possível, pela marca à qual o resíduo pertence. O plástico é o tipo de material mais presente. Estima-se que os oceanos tenham um estoque de 75 a 200 milhões de toneladas de resíduos plásticos.
"Os itens segregados geraram um banco de informações de quase 190 tipos de produtos que agora podem direcionar políticas públicas e investimentos", afirma a geógrafa Gabriela Otero, 40, gerente de resíduos e circularidade do Pacto Global da ONU no Brasil e coordenadora do Blue Keepers.
"Isso porque a gente consegue dizer para as empresas que determinado produto está problemático em certa região, na qual é preciso investir em infraestrutura de coleta e reciclagem, além do design e definição de materiais desses produtos. Quando o resíduo está valorizado, ele não vai parar no mar. O caminho dele é desviado para a reciclagem."
Segundo Otero, hoje 80% dos resíduos que circulam no mar têm origem continental. Às vezes, a centenas de quilômetros de distância do oceano.

🖊️​ Quais são os resíduos mais encontrados nas coletas?
Do nosso ranking hoje, o item mais encontrado é o fragmento de plástico rígido ou mole. Produtos de limpeza, cosméticos, embalagem de salgadinho, de doce e de alimentos. São resíduos domésticos que entraram no corpo hídrico, sofrem degradação e se fragmentam. Isso indica navegação, ou seja, é um problema que não surgiu na praia. Depois vem a bituca de cigarro, o isopor de delivery e e-commerce (aquele granulado), o pino plástico, que é usado a priori em laboratório, mas que também é para vender cocaína, e a haste de cotonete.

🖊️​ Usa-se tanto cotonete assim?
Recentemente conversamos com marcas que produzem cotonete e foi estarrecedor para elas saber que as hastes plásticas estão entre os resíduos mais encontrados nas coletas. O cotonete não é um objeto de consumo de praia, mas acontece que o consumidor joga cotonete no vaso sanitário, o que é errado. As pessoas jogam no vaso junto com o fio dental, o lencinho umedecido e o absorvente. Só que essas coisas param no gradeamento do esgotamento sanitário. O cotonete, não. É preciso comunicar para as pessoas não jogarem cotonete no vaso sanitário.

🖊️​ Como os resíduos dos brasileiros vão parar no mar?
Com toda essa costa, a gente precisava entender quais eram os pontos mais vulneráveis do território brasileiro para a poluição marinha. Fizemos um diagnóstico da gestão de resíduos nas 5.570 cidades brasileiras, do que ia para aterro sanitário, do que vai para lixão e aterro controlado e colocamos geograficamente em variáveis naturais, como precipitação, proximidade da orla, proximidade de rios. Fizemos a projeção de que mais ou menos 3 milhões de toneladas de resíduos plásticos vão para o ambiente por ano. Disso, 2 milhões de toneladas têm alto risco de parar no oceano.

A entrevista pode ser lida na íntegra clicando na Folha de S. Paulo

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