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Na Venezuela, biólogos correm contra o tempo para salvar espécie de crocodilo ameaçada de extinção

27/05/2025

O biólogo venezuelano Carlos Alvarado, 34, tem uma mão no pescoço do filhote de crocodilo e outra na cauda. Com a ajuda de uma fita, ele está medindo e acompanhando o crescimento do animal alguns dias antes de ser solto na natureza.
A história de Alvarado —e a do crocodilo-do-orinoco que ele está cuidando— é um conto de esperança e persistência diante de probabilidades esmagadoras.
Menos de cem crocodilos-do-orinoco —um dos maiores répteis do mundo— permanecem na natureza, segundo a Fudeci, fundação venezuelana de conservação. O habitat natural do animal está na bacia do rio Orinoco, que cobre a maior parte da Venezuela e se estende até a Colômbia.
Por décadas, homens e mulheres do Grupo Especialista em Crocodilos da Venezuela têm criado filhotes da espécie criticamente ameaçada em cativeiro, numa corrida contra o tempo para evitar sua extinção.
Mas eles afirmam estar perdendo a corrida. Décadas de caça ilegal, para obter couro, levaram o crocodilo-do-orinoco à beira da extinção. Agora, venezuelanos em dificuldade, que caçam os animais por sua carne e coletam ovos para alimentação, ameaçam dar o golpe final. Os membros do Grupo Especialista em Crocodilos não estão ficando mais jovens —e a geração seguinte de biólogos fugiu, em sua maioria, da turbulência política na Venezuela para trabalhar em outros lugares.
Alvarado continua sozinho para assumir o bastão. É, segundo ele, uma grande responsabilidade. Ele entende sua missão. O biólogo está tentando persuadir estudantes universitários a participarem do esforço de conservação.
Federico Pantin, 59, no entanto, não está otimista. Ele é diretor do Zoológico Leslie Pantin em Turmero, cidade perto de Caracas. Especializado em espécies ameaçadas, o zoo é um dos lugares onde os filhotes de crocodilo são criados.
"Estamos apenas adiando a extinção", diz ele. Mas Pantin e seus colegas continuam pesquisando, medindo, transportando.
Os cientistas registram os locais onde os crocodilos-do-orinoco são conhecidos por formarem ninhos, coletando seus ovos ou filhotes. Eles também criam adultos em cativeiro mantidos no zoológico e no Rancho Masaguaral, um centro de biodiversidade e fazenda de gado perto de Tamarindito, no centro da Venezuela.
Os cientistas criam os filhotes, alimentando-os com uma dieta de frango, carne bovina e vitaminas até que tenham cerca de um ano de idade e atinjam um peso de aproximadamente 6 kg.
Os crocodilos-do-orinoco adultos podem ter mais de 5 metros de comprimento e vivem por décadas — um animal de 70 anos chamado Picopando reside no Rancho Masaguaral. Os adultos têm uma armadura dura e óssea, mandíbulas ferozes e dentes afiados.
Mas quando acabam de nascer, um pesquisador pode segurar um nas mãos.
Omar Hernandez, 63, biólogo e chefe da Fudeci, marca o pequeno pé de um filhote no Zoológico Leslie Pantin. Para salvar a espécie, seriam necessários vários esforços, diz ele: pesquisa, proteção, educação e gestão.
"Estamos fazendo a gestão, coletando os filhotes, criando-os por um ano e libertando-os", diz ele. Mas "isso é praticamente a única coisa que está sendo feita. E não está sendo feita em escala".
Todos os anos, o grupo libera cerca de 200 jovens crocodilos na natureza.
Os biólogos esperam até que os animais completem um ano de idade, pois esse é o período mais crítico em suas vidas, diz Hernandez. É quando são jovens que "quase todos são caçados".
Em abril, a Reuters acompanhou os cientistas enquanto devolviam à natureza o lote deste ano. Os jovens animais foram colocados em caixas, com as mandíbulas amarradas, para a viagem do zoológico até o rio Capanaparo, no oeste da Venezuela, perto da fronteira com a Colômbia, onde há poucas casas distantes entre si. Esta parte do rio passa por terras privadas, reduzindo a probabilidade de os animais serem imediatamente caçados.
Alvaro Velasco, 66, que tem uma tatuagem de um crocodilos-do-orinoco no ombro direito, cobriu os olhos de um juvenil com fita para evitar que ficasse estressado durante a viagem.
"As pessoas me perguntam: ´Por que crocodilos? Eles são feios´", disse Velasco, presidente do Grupo Especialista em Crocodilos. "Para mim, são animais fabulosos. Você os solta e eles ficam lá, olhando para você, como se dissessem ´O que devo fazer neste rio enorme?´ E então eles nadam para longe".
Caminhonetes levaram os cientistas, os crocodilos e os voluntários por trilhas lamacentas até um acampamento próximo ao rio, onde os humanos passaram a noite dormindo em redes.
No dia seguinte, os crocodilos foram gentilmente removidos de suas caixas e levados até o rio.
"Talvez muitos desses animais sejam mortos amanhã ou depois de amanhã por falta de conscientização entre as pessoas e, claro, por causa da fome", disse Hernandez. Ele ecoou os comentários de Pantin de que, em última análise, o crocodilo-do-orinoco provavelmente estaria condenado.
Mas, disse ele, "somos teimosos. É uma forma de adiar a extinção e é algo que somos capazes de fazer. Se esperássemos pelas circunstâncias perfeitas, elas nunca viriam".

Fonte: Folha de S. Paulo

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