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Fezes de pinguins ajudam a resfriar a Antártida, diz estudo

29/05/2025

Quando pensamos na Antártida, a imagem mais comum é a de um deserto branco, repleto de geleiras e colônias de pinguins desafiando o frio extremo. Mas, por trás dessa paisagem congelada, escondem-se processos naturais surpreendentes — e um dos mais inusitados tem relação direta com as fezes desses animais.
Um novo estudo conduzido por cientistas da Universidade de Helsinque revelou que os excrementos dos pinguins-de-adélia desempenham um papel crucial na formação de nuvens na região, contribuindo para o resfriamento do clima polar e, potencialmente, retardando o aquecimento global.
A pesquisa focou em uma colônia com cerca de 60 mil pinguins-de-adélia na Península Antártica. Os cientistas descobriram que o guano dessas aves libera grandes quantidades de amônia na atmosfera — em alguns momentos, as concentrações chegaram a ser mais de mil vezes superiores ao nível de fundo. Esse gás, ao reagir com compostos de enxofre liberados por fitoplâncton, favorece a formação de partículas de aerossol, que são essenciais para criar núcleos de condensação de nuvens (CCN).
Em dias em que o vento soprava na direção das colônias, os níveis dessas partículas aumentavam consideravelmente, formando uma neblina densa, como observado em 1º de fevereiro de 2023. A análise dessas gotículas revelou sulfato de amônio — prova direta de que o processo era impulsionado pelas emissões de amônia do guano.
Além disso, a presença de outros compostos como a dimetilamina (DMA) e ácidos oxoiodínicos foi detectada, potencializando ainda mais a formação de aerossóis e, consequentemente, de nuvens.
Essas nuvens não são apenas uma curiosidade atmosférica. Elas desempenham uma função vital: refletem parte da radiação solar de volta ao espaço, diminuindo a temperatura da superfície e retardando o derretimento do gelo antártico. Em uma região com poucos aerossóis naturais, até pequenas mudanças na concentração de CCN podem ter efeitos climáticos significativos.
“Há uma conexão profunda entre os processos ecossistêmicos — como a atividade do fitoplâncton oceânico e dos pinguins — e os processos atmosféricos que impactam o clima local”, afirmou Matthew Boyer, autor principal do estudo publicado na revista Communications Earth & Environment.
Surpreendentemente, o fenômeno persiste mesmo após a migração dos pinguins: o solo impregnado de guano, chamado de solo ornitogênico, continua a liberar amônia por semanas.
O estudo também sugere que a redução das populações de pinguins, impulsionada pelo recuo do gelo marinho e pela escassez de alimentos, pode desencadear um ciclo de feedback negativo: menos pinguins resultam em menos amônia liberada, o que significa menos formação de nuvens, maior aquecimento e, por fim, ainda menos pinguins.
Mais do que uma curiosidade científica, a descoberta reforça a importância de conservar a biodiversidade como parte estratégica das soluções climáticas. Proteger espécies-chave como os pinguins não é apenas uma obrigação ética, mas uma necessidade para manter serviços ecossistêmicos invisíveis, mas vitais.
Ao mesmo tempo, a pesquisa demonstra que, enquanto resíduos humanos como os que contêm amianto são tóxicos e perigosos, resíduos naturais como o guano podem desempenhar funções ambientais positivas e essenciais.
Este achado também abre portas para reflexões sobre novas estratégias de geoengenharia ecológica: será possível replicar ou potencializar mecanismos naturais como esse para mitigar o aquecimento global?
No coração gelado da Antártida, os pinguins mostram que, às vezes, soluções poderosas para o clima podem vir dos lugares e processos mais inesperados. A esperança, como sempre, está na engenhosidade da natureza — e na nossa capacidade de observá-la, compreendê-la e preservá-la.

Fonte: CicloVivo

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