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Como os resíduos dos medicamentos afetam o meio ambiente

03/07/2025

A presença de resíduos de medicamentos nos esgotos tem sido objeto de estudos e de monitoramento há cerca de 50 anos. Com o desenvolvimento de novas tecnologias e aparelhos que permitem detectar e analisar com precisão as moléculas, tornou-se possível mapear as consequências desse tipo de poluição e seus riscos para o meio ambiente.
Pesquisas mostram que o impacto da presença de resíduos de anticoncepcionais, antibióticos, antidepressivos, analgésicos e outras drogas no meio ambiente afeta diversas regiões do mundo.
A origem dessa poluição provocada pelo despejo de medicamentos na natureza é variada, explica o especialista francês Yves Lévi, professor da Faculdade de Farmácia da Universidade Paris-Saclay e membro da Academia Nacional de Medicina e da Academia de Tecnologias.
“Houve alguns episódios no passado, protagonizados por grandes indústrias. Descobrimos que elas despejavam grandes quantidades de medicamentos no meio ambiente, o que ainda ocorre em vários países", analisa Lévi. Mas existe também a poluição provocada pelo uso cotidiano das moléculas, lembra o especialista. "Quando ficamos doentes, tomamos um medicamento e vamos ao banheiro, o eliminamos e ele acaba no esgoto, passando por todo o sistema de saneamento", diz.
A questão de os produtos serem ou não biodegradáveis sempre foi secundária, diante de outras prioridades, acrescenta Lévi. Quando os cientistas descobrem uma molécula capaz de combater uma doença, “o mais importante é que ela possa tratar o paciente”, ressalta.
“O ideal é que, graças à química moderna, possamos fazer com que essa substância se degrade mais facilmente. Mas essa questão nunca esteve entre as principais preocupações dos pesquisadores. Espero que, aos poucos, isso esteja mudando.”
Nos últimos 15 anos, foram realizadas diversas campanhas de análise nos sistemas de tratamento de esgoto na França, diz. De acordo com o especialista, elas mostram que, quando a água é tratada, entre 80% e 90% da maioria dos resíduos dos medicamentos são eliminados. “Quando as estações de tratamento de água potável atuam sobre os poluentes, ficam apenas traços ínfimos na água”, afirma.
A preocupação, segundo Lévi, é o risco potencial do acúmulo de poluentes, conhecido como expossoma, que representa o conjunto de todas as exposições ambientais capazes que podem servir de gatilho para pessoas predispostas geneticamente a desenvolver certas doenças, por exemplo. “São todos os poluentes ao nosso redor, produzidos pela química moderna, que geram essas consequências”, diz.
Essas consequências, afirma, dependem da molécula. Na maioria dos casos, quanto maior a dose, mais significativo será o impacto. No entanto, o especialista francês alerta que pequenas quantidades de resíduos de medicamentos também podem ter efeitos nocivos.
Os disruptores endócrinos, por exemplo, podem causar sérios danos a longo prazo, mesmo em doses muito baixas. Ele lembra que algumas substâncias, como os antibióticos, atuam principalmente sobre micro-organismos, o que pode levar ao aumento da quantidade de bactérias nas plantações. Outros produtos afetam mais os insetos ou os peixes, segundo o professor.
Em todos os casos, o risco e os efeitos envolvidos no descarte desses resíduos devem continuar sendo acompanhados de perto e monitorados, defende o especialista.
“Alguns dirão que as concentrações são baixas e que o debate é inútil. Mas podemos observar os efeitos nos animais e na natureza. Outros dirão que é uma catástrofe e que todos vamos morrer, o que também é um extremo inaceitável. Precisamos ser capazes de fazer uma análise de risco, dependendo do caso, de acordo com o tipo de molécula.”

Fonte: g1

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