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Microplásticos são ameaça à saúde óssea

09/10/2025

A produção anual de mais de 400 milhões de toneladas de plástico tem deixado marcas profundas no planeta — dos rios e praias ao ponto mais fundo dos oceanos, a 11 mil metros de profundidade. Além de poluir ecossistemas e agravar as mudanças climáticas, com a emissão estimada de 1,8 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa por ano, o material também começa a revelar impactos preocupantes no corpo humano com os microplásticos.
Essas partículas microscópicas, que se soltam de roupas, cortinas, móveis e outros objetos de uso cotidiano, se espalham no ar, na água e nos alimentos, podendo ser inaladas, ingeridas ou absorvidas pela pele. Já foram detectadas no sangue, no cérebro, na placenta, no leite materno e, mais recentemente, nos ossos humanos.
Um estudo vinculado a um projeto apoiado pela FAPESP e publicado na revista Osteoporosis International revisou 62 artigos científicos e mostrou que o material pode afetar a estrutura e o funcionamento dos ossos. Entre os achados, está a capacidade dos microplásticos de interferirem nas células-tronco da medula óssea, estimulando a formação de osteoclastos, células que degradam o tecido ósseo num processo conhecido como reabsorção óssea.
“O potencial de impacto dos microplásticos nos ossos é motivo de estudos científicos e não é desprezível. Por exemplo, estudos in vitro com células do tecido ósseo demonstraram que o microplástico prejudica a viabilidade celular, acelera o envelhecimento das células e altera a diferenciação celular, além de promover inflamação”, afirma Rodrigo Bueno de Oliveira, coordenador do Laboratório para o Estudo Mineral e Ósseo em Nefrologia (Lemon) da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.
Segundo Oliveira, experimentos em animais mostram que a aceleração da senescência dos osteoclastos pode comprometer a microestrutura óssea, provocar displasias e enfraquecer os ossos, facilitando deformidades e fraturas patológicas. “Nesse estudo, os efeitos adversos observados culminaram, de forma preocupante, na interrupção do crescimento esquelético dos animais”, relata o pesquisador.
Embora ainda não se compreenda completamente o impacto dessas partículas nas propriedades mecânicas dos ossos, há indícios de que sua circulação no sangue possa afetar diretamente o tecido. “O mais impressionante é que um conjunto significativo de estudos sugere que os microplásticos podem atingir a intimidade do tecido ósseo, como, por exemplo, a medula óssea, e potencialmente causar diversas perturbações em seu metabolismo”, acrescenta Oliveira.
A equipe do pesquisador deu início a um novo projeto que pretende verificar, na prática, o que a teoria já indica: a relação entre a exposição a microplásticos e o agravamento de doenças ósseas metabólicas. O trabalho, conduzido em modelo animal, investigará o efeito do material sobre a resistência dos ossos do fêmur de roedores. Segundo a International Osteoporosis Foundation (IOF), a prevalência de fraturas por osteoporose vem crescendo globalmente devido ao envelhecimento populacional, com projeção de aumento de 32% até 2050.
“Melhorar a qualidade de vida e reduzir o risco de complicações ósseas, como fraturas, é uma prioridade na área da saúde. Já sabemos que práticas como exercícios físicos, alimentação equilibrada e tratamentos farmacológicos contribuem significativamente para isso. No entanto, apesar de as doenças osteometabólicas serem relativamente bem compreendidas, existe uma lacuna quanto à influência de microplásticos no desenvolvimento dessas doenças. Por isso, um de nossos objetivos é gerar evidências na direção de que os microplásticos poderiam ser uma potencial causa ambiental, controlável, para explicar, por exemplo, o aumento da projeção de fraturas ósseas”, conclui Oliveira.

Fonte: CicloVivo

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