
13/11/2025
Nos corredores da Zona Azul da COP30, em frente ao primeiro Pavilhão de Ciências Planetárias das conferências do clima da ONU, dois nomes de peso da área de mudanças climáticas conversam casualmente sobre um novo artigo em que são coautores. Um é José Marengo, do Cemaden, que está otimista com essa edição da COP. A outra é Luciana Gatti, do Inpe, com menos esperanças que o colega.
"Se não mudar o rumo das coisas, eu sou altamente pessimista", diz Gatti. A descrença tem motivo: um novo estudo, recém-submetido à revista Nature, carrega os resultados de 15 anos de medição de carbono na amazônia, que mostram que a floresta não tem essa capacidade toda de absorver CO₂ que a gente acha que ela tem.
O artigo ainda não foi revisado pelos pares, mas seus dados sugerem que essa capacidade de absorção de carbono que todo mundo acha que a floresta tem na verdade se deve, em boa parte, ao fenômeno La Niña (que provoca um resfriamento anormal das águas do oceano Pacífico). Ao longo desses 15 anos, as estações chuvosas em que se observou mais absorção de carbono derivaram desse fenômeno. Isso significaria que a suposta capacidade de captura da floresta depende de condições climáticas favoráveis —e, com o aumento de eventos extremos, essa "margem" está se fechando.
"A gente faz as medições a bordo de aviões, não foi por modelagem, e os resultados são piores do que os dos modelos", conta Gatti. "Analisamos 16 parâmetros diferentes para entender o que está moldando a dinâmica da floresta. E a resposta é dura: é a ação humana."
Quanto mais desmatamento, mais estresse para o clima de uma floresta tropical úmida. Menos árvore = mais calor = menos chuva. E isso reduz a capacidade da floresta de absorver carbono.
Um dos dados mais alarmantes é o de que o sudeste da amazônia, a partir de 2016, tornou-se uma fonte de carbono por si só. Mesmo subtraindo as emissões por queimadas, ainda sobra emissão —e a tendência é crescente.
No ano passado, por exemplo, a maioria das emissões da região amazônica veio de queimadas, mas, na porção sudeste, 62% das emissões não vinham de fogo, o que revela uma degradação estrutural do sistema. "Desmatamento zero para 2030 já não é suficiente. Mesmo para hoje não bastaria. Se a gente não ajudar a amazônia a se restaurar, vamos perdê-la", afirma Gatti.
"Precisamos parar de olhar para a natureza como se ela fosse uma quantidade de carbono estocado. A natureza é viva e reage. A condição climática está ficando cada vez mais estressante, e é por isso que os eventos extremos estão chegando muito antes do que os modelos preveem. Precisamos de uma ação de mitigação muito maior do que a gente se propôs a fazer."
Para José Marengo, a prioridade desta COP deve ser a negociação sobre adaptação, principalmente para as comunidades mais vulneráveis, que são as que menos poluem e emitem carbono. "Sou otimista de que a discussão vai ser produtiva. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), por exemplo, é uma iniciativa excelente."
Fonte: Folha de S. Paulo
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