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Escolas Vivas levam educação enraizada ao território

02/12/2025

Território. É desse ponto de partida que nascem as Escolas Vivas, um movimento idealizado pela Associação Selvagem que converte saberes ancestrais da floresta em práticas de educação conectadas ao território, à cultura e à memória dos povos originários. Sob a coordenação de Cristine Takua, a iniciativa apoia cinco terras indígenas e aposta na autonomia das comunidades, no fortalecimento de línguas e nos modos de vida que sustentam essas culturas há séculos.
Embora o Brasil tenha mais de 3 mil escolas indígenas oficialmente reconhecidas, boa parte delas ainda esbarra em obstáculos crônicos: infraestrutura precária, falta de professores bilíngues e quase nenhuma produção de materiais pedagógicos em línguas originárias. Mesmo com a Constituição assegurando um modelo de ensino diferenciado, esses desafios colocam em risco a continuidade de idiomas e tradições.
As Escolas Vivas oferecem uma alternativa prática a essa lacuna: cada escola recebe R$ 8 mil por mês, somando R$ 480 mil ao ano em repasses diretos, além de materiais didáticos próprios e a possibilidade dos estudantes praticarem suas línguas nativas. Em 2024, mais de 4.500 pessoas foram impactadas pela iniciativa, que, apenas no ano passado, alcançou 4500 beneficiados em atividades culturais e de pesquisa.
Na Terra Indígena Ribeirão Silveira, litoral de São Paulo, a Mbya Arandu Porã — Escola Viva Guarani é conduzida por Carlos Papá. A rotina da escola mistura-se a técnicas de agrofloresta, criação de abelhas nativas e práticas culturais que revitalizam o Guarani e despertam memórias sagradas. É ali que os estudantes cantam, desenham e aprendem diretamente com as lideranças mais velhas, em um processo de transmissão intergeracional.
Em Teófilo Otoni (MG), a Apne Ixkot Hâmhipak — Escola Viva Maxakali, coordenada por Sueli e Isael, reúne 327 pessoas. O projeto se apoia na retomada da Aldeia Escola Floresta, hoje reconhecida como Terra Indígena, e articula ações de reflorestamento, oficinas culturais e encontros de pajés. Os Maxakali, cerca de 3 mil pessoas, resistem em uma região fragmentada pelo avanço agropecuário nos séculos XIX e XX, e preservam o Maxakali, um dos últimos idiomas nativos de Minas Gerais e da Bahia.
No Acre, a Shubu Hiwea — Escola Viva Huni Kuï, guiada pelo pajé Dua Busë e por Netë, beneficia aproximadamente 3 mil pessoas na Terra Indígena do Rio Jordão. A escola mantém o Parque União da Medicina, um jardim de plantas voltadas à cura tradicional, e realiza oficinas de tecelagem nas quais as mulheres ensinam os kenês, grafismos sagrados que carregam narrativas ancestrais em cada linha e forma.
No Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), a Wanheke Ipanana Wha Walimanai — Escola Viva Baniwa, conhecida também como “Casa de Conhecimento da Nova Geração”, envolve 90 famílias de 7 comunidades ao longo do Rio Içana. Coordenada por Francy e Francisco Fontes, a escola integra o cotidiano ao aprendizado: o banho no rio, o plantio da roça e os cantos rituais fazem parte da formação. O povo Baniwa, ou Medzeniakonai, tem 3 mil anos de história cultural singular, fala Baniwa, Koripako e Nheengatu e mantém formas ancestrais de governança em um território que cruza fronteiras entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
Em Manaus, o Bahserikowi — Escola Viva Tukano-Dessano-Tuyuka, coordenada por João Paulo Tukano e Ivan, é o primeiro Centro de Medicina Indígena do Amazonas criado para dialogar com universidades e instituições públicas. O centro recebe cerca de 1.000 pessoas ao ano para atendimentos com bahsese (benzimentos) e o uso de plantas medicinais, saberes dos povos Tukano, Tuyuka e Desana. O espaço mantém parcerias com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI) e a Fiocruz, e abre as portas para turmas da UFAM em trocas regulares entre conhecimentos indígenas e científicos.
A residência Casa Escola Viva, realizada pela Selvagem no MAM Rio entre 13 e 24 de outubro, reuniu dez artistas indígenas da Amazônia e da Mata Atlântica em um processo de criação coletiva, intercâmbio de saberes e fortalecimento cultural coordenado por Cristine Takuá.
Representantes de povos como Huni Kuin, Baniwa, Guarani Mbya, Maxakali e Tukano-Dessano-Tuyuka desenvolveram trabalhos que foram vistos pelo público e integraram o encontro flutuante ÁGUAMÃE. Como desdobramento da residência, está prevista para o primeiro semestre de 2026 uma exposição no Instituto Tomie Ohtake, ampliando a circulação dessas criações e o debate sobre arte indígena e proteção de saberes tradicionais.
Em 2024, as Escolas Vivas realizaram mais de 54 oficinas e 6 passeios educativos com a participação de crianças, jovens e mestres em experiências interculturais. No Rio de Janeiro, a parceria com a Escola Municipal Professor Escragnolle Dória levou práticas indígenas para 440 crianças e 20 professores.
Além disso, os Diários de Aprendizagens, escritos por Cristine Takuá e Veronica Pinheiro, traduzidos para o inglês, ampliam o alcance internacional do projeto. A coordenadora das Escolas Vivas, Cristine Takuá, participou de debates sobre educação indígena em palcos globais como o Kunstenfestivaldesarts (Bélgica), o Skábmagovat Indigenous Film Festival (Finlândia) e conferências em Harvard (EUA).

Fonte: CicloVivo

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