
19/03/2026
Durante décadas, o Deserto de Taklamakan foi descrito como um verdadeiro “vazio biológico”, uma imensa área de areia movediça onde quase nada consegue sobreviver. Com área ligeiramente maior do que o estado estadunidense Montana e cercado por cadeias montanhosas que bloqueiam grande parte da umidade, ele permanece entre os maiores e mais secos desertos do planeta. Pesquisas recentes, porém, indicam que mudanças importantes estão ocorrendo nas áreas que o circundam. Após décadas de plantio de árvores em larga escala, cientistas relatam que a vegetação ao redor de Taklamakan passou a absorver mais dióxido de carbono do que o deserto libera. Na prática, partes dessa paisagem, antes associadas ao avanço da desertificação, começam a atuar como um sumidouro de carbono.
Mais de 95% da superfície de Taklamakan é formada por areia movediça. Desde a década de 1950, a rápida urbanização e a expansão das áreas agrícolas na China contribuíram para a degradação do solo e para processos de desertificação, intensificando as tempestades de areia e favorecendo a expansão do deserto. Para enfrentar esse problema, a China lançou o Programa de Proteção das Três Regiões do Norte, em 1978, conhecido como Grande Muralha Verde. A iniciativa prevê o plantio de bilhões de árvores nas bordas dos desertos de Taklamakan e Gobi até 2050, formando uma extensa faixa de vegetação destinada a estabilizar o solo e conter o avanço das áreas áridas.
Até agora, mais de 66 bilhões de árvores já foram plantadas no norte do país. Em 2024, autoridades anunciaram a conclusão do cinturão verde que circunda Taklamakan. Nesse período, a cobertura florestal da China aumentou de cerca de 10% do território nacional em 1949 para mais de 25% atualmente. Ainda existe debate sobre a eficácia do projeto na redução das tempestades de areia. Mesmo assim, seu impacto sobre a dinâmica do carbono começa a se tornar mais claro. Um estudo publicado em 19 de janeiro na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences analisou 25 anos de observações em solo e dados de satélite que acompanharam fatores como precipitação, cobertura vegetal, fotossíntese e fluxos de dióxido de carbono ao redor de Taklamakan.
Os pesquisadores também utilizaram dados de modelagem do Carbon Tracker da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que identifica fontes e sumidouros globais de carbono. Os resultados mostram uma expansão consistente da vegetação e um aumento da absorção deste elemento ao longo do perímetro do deserto. Segundo o estudo, essas mudanças coincidem no tempo e no espaço com o avanço da Grande Muralha Verde. “Descobrimos, pela primeira vez, que a intervenção humana pode aumentar efetivamente o sequestro de carbono mesmo nas paisagens áridas mais extremas, demonstrando o potencial de transformar um deserto em um sumidouro de carbono e deter a desertificação”, disse o coautor do estudo, Yuk Yung, professor de ciência planetária no California Institute of Technology (Caltech) e pesquisador sênior do Jet Propulsion Laboratory, da NASA.
Durante a estação chuvosa do deserto, entre julho e setembro, a precipitação média mensal chega a cerca de 16 milímetros (0,6 polegadas), aproximadamente duas vezes e meia mais do que no período seco. Mesmo modesto, esse aumento tem efeitos mensuráveis. Nos meses mais úmidos, a cobertura vegetal e a atividade fotossintética nas bordas do deserto aumentam, reduzindo a concentração de dióxido de carbono na atmosfera sobre a região de 416 partes por milhão na estação seca para 413 partes por milhão no período chuvoso. Embora a diferença de três partes por milhão pareça pequena, em grande escala ela indica uma absorção líquida de carbono associada à vegetação viva, e não apenas ao comportamento instável das areias do deserto.
Pesquisas anteriores sugeriam que o deserto de Taklamakan poderia funcionar como sumidouro de carbono porque suas areias conseguem absorver dióxido de carbono. Esse tipo de armazenamento, porém, é considerado instável: o aumento da temperatura pode fazer com que o ar aprisionado na areia se expanda e libere o carbono acumulado. O novo estudo destaca outro mecanismo — o armazenamento de carbono ligado à vegetação. “Com base nos resultados deste estudo, o Deserto de Taklamakan, embora apenas em sua periferia, represente o primeiro modelo bem-sucedido que demonstra a possibilidade de transformar um deserto em um sumidouro de carbono ”, disse Yung. A ressalva é importante: o interior do deserto permanece praticamente inalterado. Já a faixa vegetada em seu entorno passou a desempenhar um papel ativo na captura de carbono.
Ainda há dúvidas sobre se a Grande Muralha Verde conseguirá reduzir significativamente a desertificação ou a frequência de tempestades de areia no longo prazo. Projetos de engenharia ecológica em grande escala envolvem desafios, e cientistas continuam avaliando fatores como uso da água, escolha de espécies e resiliência dos ecossistemas. Mesmo assim, as descobertas sobre o carbono trazem uma nova perspectiva sobre o projeto. Yung observa que a transformação observada em Taklamakan “pode servir como um modelo valioso para outras regiões desérticas”. Intervenções semelhantes, quando bem planejadas e adaptadas às condições locais, poderiam ajudar a estabilizar paisagens vulneráveis enquanto removem carbono da atmosfera.
Fonte: CicloVivo
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