
10/02/2026
O plano do governo Trump de empregar um batalhão de pequenos reatores nucleares para alimentar a era da IA está recorrendo a uma estratégia antiga para descartar os resíduos altamente tóxicos: enterrá-los em um buraco muito fundo.
O problema é que esse buraco muito fundo não existe, e as cerca de 100 mil toneladas de lixo radioativo em armazenamentos temporários de usinas nucleares e outros locais nos Estados Unidos continuam crescendo.
Para resolver esse dilema, o governo americano está convidando estados a se voluntariar para abrigar um estoque permanente de combustível nuclear usado.
O depósito seria parte de um campus que inclui novos reatores nucleares, reprocessamento de resíduos, enriquecimento de urânio e data centers, de acordo com uma proposta publicada pelo Departamento de Energia (DOE, na sigla em inglês) na semana passada.
A iniciativa marca uma mudança no modus operandi do setor. Agora, o plano para impulsionar a energia nuclear vem junto da exigência de encontrar um destino permanente para os resíduos e coloca a decisão nas mãos das comunidades locais —decisão, esta, que vale dezenas de bilhões de dólares em investimentos e milhares de empregos, segundo um porta-voz do escritório de Energia Nuclear do DOE.
O presidente Donald Trump quer quadruplicar a capacidade de energia nuclear dos Estados Unidos para 400 gigawatts até 2050. A demanda por eletricidade no país está aumentando pela primeira vez em décadas graças à eletrificação dos transportes e ao boom dos data centers que impulsionam a inteligência artificial.
No entanto, a aceitação pública da energia nuclear depende em parte da promessa de enterrar os resíduos nucleares em grandes profundidades, de acordo com estudos dos governos americano e britânico, bem como da Comissão Europeia.
O DOE começou a procurar uma instalação permanente de resíduos em 1983 e escolheu a montanha Yucca, em Nevada, em 1987. Mas o ex-presidente Barack Obama interrompeu o financiamento em 2010 devido à oposição de legisladores do estado.
Para acelerar a implantação da energia nuclear, países como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, China e Suécia estão defendendo os chamados pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês).
O apelo deste modelo é que pode ser majoritariamente pré-fabricado, o que torna seu processo de montagem mais rápido e barato do que os reatores convencionais. Porém, os SMRs não resolvem o problema do lixo nuclear.
A maioria dos novos SMRs deve produzir volumes de resíduos semelhantes, ou até superiores, por unidade de energia elétrica aos grandes reatores atuais, de acordo com um estudo de 2022.
Os SMRs também podem ser instalados em áreas sem a infraestrutura necessária para usinas maiores, o que poderia fazer aumentar muito a quantia de depósitos provisórios de resíduos nucleares. Nos Estados Unidos, porém, "provisório" tem durado décadas.
A perspectiva de uma nova onda de reatores nucleares reacendeu o interesse no reprocessamento de combustível usado, pelo qual urânio e plutônio são separados e, em alguns casos, reutilizados.
"Tecnologias modernas, particularmente reciclagem e reprocessamento avançados, podem reduzir drasticamente o volume de material nuclear que requer descarte", disse o porta-voz do escritório de energia nuclear. "Ao mesmo tempo, o reprocessamento não elimina a necessidade de descarte permanente."
Especialistas em segurança nuclear, no entanto, questionam se o reprocessamento seria incluído em algum dos novos campi.
"Toda vez que essa técnica foi usada, ela falhou. E ela cria riscos de segurança e proliferação, os custos são enormes e complica a gestão de resíduos", disse Ross Matzkin-Bridger, ex-funcionário do DOE. Ele afirmou que os poucos países que reprocessam combustível estavam reciclando entre zero e 2% do total, muito abaixo dos 90% prometidos.
A matéria completa pode ser lida na Folha de S. Paulo
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