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IA ajuda a “escutar” a degradação no semiárido

12/03/2026

Ouvir o ambiente pode revelar muito sobre a saúde de um ecossistema. Essa é a base do projeto Escutadô, que utiliza ecoacústica, ciência de dados e inteligência artificial para analisar sons da paisagem e detectar sinais de degradação no semiárido brasileiro. A iniciativa é conduzida por uma rede de instituições liderada pela FITec Labs, com participação da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e outros parceiros. Após estruturar uma ampla base de registros sonoros, o projeto entra agora em novas fases de validação e expansão com o objetivo de ampliar o acesso público às informações e incentivar a participação da sociedade no monitoramento ambiental.
A proposta do Escutadô é simples no conceito, mas inovadora na prática: registrar e interpretar a paisagem sonora para compreender transformações ecológicas ao longo do tempo. A iniciativa foi aprovada com apoio da Finep, responsável pelo financiamento do projeto, que prevê o desenvolvimento de um sistema capaz de reconhecer, diretamente no campo, tendências de degradação em habitats não urbanos do semiárido. O investimento destinado à evolução tecnológica da pesquisa chega a R$ 3 milhões.
Desde o início das coletas, em 2024, os pesquisadores passaram a registrar sons em 63 pontos espalhados pelos estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba. “Nosso objetivo central é desenvolver uma ferramenta de detecção de áreas degradadas com base em informação acústica, por meio do treinamento de inteligência artificial”, afirma Lucas Forti, pesquisador da UFERSA e um dos coordenadores do projeto. Embora a inteligência artificial seja amplamente utilizada para interpretar imagens, a análise sistemática de sons ambientais ainda é um campo menos explorado. No Escutadô, a aposta está justamente na leitura da paisagem sonora como forma de identificar mudanças no ambiente. Para Giovanni Holanda, cientista de dados da FITec Labs (Fundação para Inovações Tecnológicas) e um dos responsáveis pela estruturação da iniciativa, o próprio nome do projeto resume essa abordagem: “a nossa proposta, como o próprio nome diz, se volta para a escuta do ambiente”, ampliando a capacidade de compreender transformações ecológicas a partir dos sons presentes na natureza.
Nos primeiros 12 meses de operação, a iniciativa acumulou cerca de 220 mil arquivos de áudio, somando mais de 11 mil horas de gravações. Em cada local monitorado, equipamentos registram o som ambiente em ciclos, alternando períodos de gravação e intervalos. Esse método permite construir um conjunto amplo de dados que reúne elementos bióticos (vivos) e abióticos (não vivos) da paisagem sonora. Para complementar os registros, o projeto também utiliza estações meteorológicas alimentadas por energia solar. Esses equipamentos coletam informações como umidade do ar, velocidade do vento, temperatura e volume de chuvas, fornecendo contexto ambiental para a análise das gravações.
Um dos destaques desta fase do projeto é o envolvimento direto de moradores da região. Pessoas da comunidade local, incluindo meliponicultores, passaram a atuar como “cientistas cidadãos”, ajudando a acompanhar os sons de seus próprios territórios. A colaboração amplia o volume de dados coletados e também contribui para aproximar a ciência da população, além de estimular a transparência na divulgação de informações relacionadas ao clima e ao ambiente.
O projeto também prevê o desenvolvimento de uma plataforma digital que permitirá ampliar a participação social e expandir o alcance territorial da iniciativa. A proposta é que qualquer pessoa possa contribuir enviando gravações de diferentes áreas do semiárido, fortalecendo uma rede colaborativa de produção de conhecimento científico. “Queremos usar tecnologia de ponta e produzir mais conhecimento de forma colaborativa”, reforça Lucas Forti.
Com a expansão do banco de dados sonoros e o treinamento dos modelos de inteligência artificial, a iniciativa avança agora para etapas de validação e para a criação da ferramenta que permitirá interação com o público. Ao mesmo tempo, o projeto promove atividades de engajamento, como encontros e eventos voltados à ciência cidadã e à inovação. Essas ações reúnem pesquisadores, estudantes, empreendedores e moradores da região para discutir como a tecnologia pode contribuir com o monitoramento ambiental e a conservação do semiárido.

Fonte: CicloVivo

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