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Projeto de soltura de tartarugas na amazônia bate recorde, mas tráfico ameaça conservação

12/03/2026

Cerca de 8.000 filhotes de quelônios devem ser soltos na amazônia neste ano, o maior número já registrado na história do projeto Bicho de Casco, que atua desde 2010 na reserva extrativista Baixo Rio Branco-Jauaperi, uma unidade de conservação federal na divisa de Amazonas e Roraima. Porém, a ameaça do tráfico permanece.
A iniciativa protege cem quilômetros do rio Jauaperi, afluente do Negro, e envolve as espécies iaçá, irapuca, tracajá e tartaruga-da-amazônia, que só põem ovos nas praias fluviais e são mais vulneráveis à extinção. Com o apoio de empresas locais de ecoturismo, a operação paga ribeirinhos para vigiarem as margens durante a noite no período de desova e inibir pessoas que capturam os animais para comércio ilegal ou consumo próprio.
O projeto adota uma metodologia de manejo desenvolvida pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas) que envolve a retirada dos ovos das praias e a construção de ninhos artificiais, para evitar ataques de iguanas e formigas.
O protocolo também prevê a soltura dos répteis cerca de 30 dias após a eclosão dos ovos, quando termina a cicatrização do umbigo dos animais, para que eles tenham maior probabilidade de sobreviver. Até o momento, aproximadamente 5.700 filhotes já foram devolvidos à natureza na temporada 2025 e 2026, e outros 2.500 devem ser liberados nos próximos meses.
"É gratificante que hoje seja o maior projeto do tipo na bacia do rio Negro, mas estamos longe de realmente mudar alguma coisa", afirma o escocês Paul Clark, fundador do Bicho de Casco. "Ainda estamos perdendo a batalha, o tráfico consegue levar muito mais de 7.000 filhotes por ano."
Francisco Parede coordena a iniciativa de conservação e diz sentir falta de mais vigilância das autoridades. "O que a gente está fazendo parece que é só uma gotinha ainda muito pequena para equilibrar esse ecossistema. A gente sabe que falta muito, é uma luta pela vida inteira."
O engenheiro civil Ruy Tone, um dos fundadores da Expedição Katerre e do hotel Mirante do Gavião Amazon Lodge, empresas financiadoras do projeto, afirma que as fêmeas adultas são o alvo principal dos traficantes, o que rompe o ciclo de reprodução.
Hueliton Ferreira, chefe do Núcleo de Gestão Integrada do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) em Novo Airão (AM), reconhece a existência de lacunas na fiscalização.
"A gente tem se esforçado bastante, mas o território é muito extenso, e não temos número suficiente de pessoas para fiscalizar toda a área." Ele diz que o órgão apreendeu 2.000 quelônios adultos na área do baixo rio Negro durante o verão amazônico em 2025.
Segundo Tone, uma canoa simples consegue transportar em torno de 200 animais, que são vendidos ilegalmente por cerca de R$ 50 cada em Novo Airão ou Manaus. Assim, é possível faturar até R$ 10 mil em uma única viagem, mas, descontado o gasto com combustível e a divisão do dinheiro com mais pessoas, o lucro individual cai para aproximadamente R$ 2.000 por temporada.
"A ideia era tentar, pouco a pouco, introduzir na cabeça das pessoas de que era necessário preservar os quelônios. Ao mesmo tempo, a gente deveria fazer a nossa parte, que é resolver a questão de remuneração, porque, em parte, eles caçam justamente para gerar renda", afirma.
O projeto segue o formato de pagamento por serviços ambientais, e cada ribeirinho recebe um salário mínimo durante os dois meses de vigília nas praias, além de R$ 5 por filhote saudável solto na natureza.

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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