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Ameaça climática, enfraquecimento de corrente no Atlântico tem um problema de imagem

23/06/2026

Nas profundezas do oceano Atlântico, uma vasta corrente marinha transporta calor dos trópicos em direção à Groenlândia. Trata-se da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico ("Atlantic meridional overturning circulation", ou Amoc, em inglês). Esse processo ocorre em grande parte fora de nossa vista, por isso não tem a mesma posição no imaginário público das florestas tropicais, das calotas polares ou de outros enormes sistemas reguladores do clima.
Estudos recentes sugerem que a Amoc está enfraquecendo. Se ela desacelerar ainda mais, o norte da Europa poderá enfrentar invernos muito mais frios, mesmo com o aquecimento global, enquanto as monções tropicais poderão se deslocar e o nível do mar poderá subir repentinamente ao longo da costa leste dos Estados Unidos.
Mas apesar dos repetidos alertas dos cientistas, a Amoc raramente fica nas manchetes por muito tempo. Uma explicação envolve donos das mídias e restrições editoriais, mas há outra. A Amoc apresenta um problema específico para o jornalismo moderno: é extremamente difícil para muitos sequer imaginá-la, já que ela existe em um mundo muito abaixo do nosso —movendo-se lenta e silenciosamente pelo Atlântico.
Imagens ajudam a moldar a forma como as pessoas compreendem as questões climáticas. No jornalismo, ao longo de décadas, desenvolveu-se uma cultura visual: florestas em chamas, icebergs se fragmentando, plataformas de petróleo ao pôr do Sol, furacões giratórios, praias repletas de garrafas plásticas. Essas imagens funcionam como representações de sistemas que são difíceis ou impossíveis de observar diretamente. O jornalismo climático não criou esse filtro visual, mas precisa operar dentro dele.
A grande mancha de lixo do Pacífico ilustra como esse filtro funciona. Muitas vezes imaginada como uma ilha flutuante de lixo, na realidade é uma sopa difusa de microplásticos espalhados por milhões de quilômetros quadrados de oceano, praticamente invisível ao nível do mar.
Mas a mancha de lixo ganha destaque na cobertura jornalística em parte porque imagens representativas lhe conferem uma forma reconhecível –garrafas descartadas e redes retiradas do oceano, um nadador de maratonas aquáticas coletando dados durante uma longa jornada. Essas imagens permitem que a mancha de lixo permaneça continuamente no noticiário convencional, mesmo que isso simplifique e distorça o que está acontecendo no oceano.
A Amoc opera em uma escala lenta, mas imensa. Águas superficiais quentes se deslocam para o norte, partindo dos trópicos em direção à Groenlândia, onde se resfriam, tornam-se mais densas, afundam cerca de 5.000 metros e retornam para o sul em profundidade. Com centenas de quilômetros de largura em alguns pontos, ela redistribui calor e salinidade pelo Atlântico em escala maciça.
Muitos processos dinâmicos moldam essa corrente oceânica, por isso ainda não sabemos exatamente com que rapidez a circulação mudará ou mesmo qual será sua trajetória futura. Os resultados previstos permanecem incertos e alguns cientistas estão mais otimistas do que outros, mas vários estudos indicam uma tendência de enfraquecimento da corrente.
A Amoc, porém, gera poucos indícios visuais. Os pesquisadores podem observar seus vestígios: corais mortos há muito tempo que carregam ecos químicos das águas do passado, camadas de sedimentos que acumulam lentamente um registro das correntes ou por meio de instrumentos que registram a data e a hora dos movimentos mais sutis nas profundezas do mar. Esses fragmentos são reunidos em padrões por meio de modelos computacionais que reconstroem a circulação e podem animá-la em três dimensões. Os satélites oferecem algumas pistas superficiais sobre temperatura, profundidade e salinidade. Mas os resultados desse trabalho são geralmente destinados à análise científica, não à cobertura jornalística ou à compreensão do público.

A íntegra desta reportagem pode ser lida na Folha de S. Paulo

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