
20/10/2026
Em vez do barulho dos tiros, há o tamborilar de fragatas macho, com seus papos vermelhos inchados como balões prestes a estourar. Do outro lado de uma das ilhas de Alcatrazes, no meio da mata, o silêncio. Dez anos após um decreto, assinado em 2 de agosto de 2016, ter transformado uma área da Marinha em refúgio de vida silvestre, a recuperação ambiental do arquipélago, no litoral norte paulista, pode ser vista —e ouvida— por todos os lados.
A cerca de 40 km da costa de São Sebastião e Ilhabela, o arquipélago é formado por 13 ilhas e ilhotas em mais de 670 km² de área protegida. É apontado como um dos principais ambientes de biodiversidade marinha do Sudeste do país.
Ali vivem mais de 1.300 espécies. Aproximadamente cem delas estão ameaçadas de extinção.
O arquipélago possui o maior ninhal de fragatas do Atlântico Sul e funciona como área de alimentação, reprodução e descanso para mais de 10 mil aves marinhas.
Não é incomum navegar por ali ao lado de golfinhos, tubarões e até baleias.
O decreto assinado pelo ex-presidente Michel Temer (MDB), que criou o Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, transformou a região em unidade de conservação federal, submetendo a pesca e outras atividades a regras de proteção ambiental e fiscalização.
A criação do refúgio também permitiu organizar a visitação e ampliar as ações de pesquisa, monitoramento e conservação.
Há uma década, dezenas de barcos de pesca ficavam ancorados no arquipélago, afirma Daniel Lage, agente ambiental temporário do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) Alcatrazes. "A pressão sobre a área havia reduzido, principalmente, a fauna marinha, com impacto sobre peixes maiores e predadores como tubarões, cações e garoupas. Agora, esses animais começam a reaparecer."
No dia 26 do mês passado, o biólogo acompanhou a Folha numa caminhada de cerca de uma hora, em trilha fechada, até a base do ICMBio, instalada no topo da ilha principal, também chamada de Alcatrazes, a quase 300 metros de altura. Foi uma rara autorização para uma equipe de reportagem fazer expedição no santuário ambiental.
A visitação ao arquipélago é autorizada a operadoras de turismo credenciadas, porém rigidamente controlada. Não é permitido desembarcar nas ilhas. O local tornou-se um dos melhores pontos de mergulho do litoral paulista —em 2024, um grupo nadou com aproximadamente cem tubarões em Alcatrazes.
"Quando a gente tem tubarão, é um bom sinal", diz Lage. Segundo ele, a presença de grandes predadores indica que a cadeia alimentar está voltando.
Tubarões e outros peixes mais sensíveis começaram a reaparecer há três anos, de acordo com o biólogo. A recuperação, segundo ele, resulta de um processo que envolve fiscalização, autuações e, sobretudo, conscientização dos pescadores da região.
Mas é preciso ficar de olho. Pouco antes de a reportagem desembarcar na ilha principal, agentes do ICMBio flagraram um barco de pesca na região, que fugiu.
Em novembro do ano passado, fiscais apreenderam mais de 300 tubarões e outras espécies de peixes capturados por pescadores. Foram aplicados em torno de R$ 3 milhões em multas. O caso resultou em uma investigação da Polícia Federal.
Em 2025, houve a soma de quase R$ 3,4 milhões em multas, o maior valor da história para o arquipélago, segundo o ICMBio, exatamente por causa desse caso.
Os flagrantes voltaram a subir. Foram cinco em 2025, o maior número desde 2021, quando ocorreram 12.
Atualmente, afirma o órgão ambiental, o problema são pescadores profissionais, que operam à noite em barcos pequenos.
"A capacidade dessas embarcações é relativamente grande, com petrechos de pesca altamente impactantes, como redes de emalhe que matam tubarões e tartarugas", diz o ICMBio.
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