
28/07/2026
O número de espécies exóticas (não nativas) de moluscos encontradas no Brasil aumentou de 26 para 82 nos últimos 15 anos, segundo o primeiro inventário de amplitude nacional já produzido sobre esses organismos no país.
Dessas, 20 são consideradas invasoras —ou seja, capazes de causar prejuízos ecológicos, socioeconômicos ou à saúde—, incluindo o mexilhão-dourado e o caramujo-africano. A lista completa inclui organismos terrestres, aquáticos (de água doce) e marinhos (de água salgada).
"Observamos uma taxa acelerada de introdução de moluscos não nativos no Brasil e lacunas persistentes no conhecimento taxonômico e ecológico dessas espécies", comenta Marcel Sabino Miranda, que participou do estudo durante pós-doutorado no Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo) com bolsa da Fapesp.
O estudo, publicado em abril na revista Biological Invasions, foi liderado por Fabrizio Marcondes Machado, do Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), em colaboração com cientistas de diversas instituições e estados brasileiros.
Os autores destacam a necessidade urgente de fortalecer medidas de biossegurança e esforços de detecção precoce, além de estabelecer programas de monitoramento de longo prazo em todos os ambientes. Defendem ainda que, quando houver impactos, se definam adequadamente sua qualidade e magnitude.
"Algumas espécies são bem problemáticas, como o mexilhão-dourado e o caramujo-africano, mas a maioria não sabemos se está causando algum dano ou pode vir a causar", conta Miranda, que atualmente realiza estágio de pós-doutorado na Universidade do Alabama, nos Estados Unidos.
O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) chegou ao Brasil provavelmente no início dos anos 1990, após uma longa jornada de invasões desde a China. Espalhado pela América do Sul, causa entupimentos e perda de eficiência em usinas hidrelétricas, entre outros problemas. Apesar de ser alvo de um plano de controle, o molusco continua prosperando. Estima-se que cerca de US$ 10 milhões (cerca de R$ 51 milhõ já tenham sido aplicados para combatê-lo no Brasil.
O caramujo-africano (Lissachatina fulica), por sua vez, foi introduzido no país como alternativa ao escargot, mas teve o cultivo abandonado e hoje está espalhado pelo território. Pode ser uma praga agrícola, além de hospedeiro intermediário de um parasita causador de meningite, o nematoide Angiostrongylus cantonensis.
Segundo os pesquisadores, há poucas informações sobre moluscos invasores no Brasil, apesar de as invasões biológicas serem apontadas como uma das principais ameaças à proteção da biodiversidade no mundo. Por aqui, o foco predominante está em peixes, artrópodes (insetos) e mamíferos.
No levantamento, constam ainda 13 espécies cuja origem não foi possível determinar, chamadas criptogênicas. A cautela na classificação se dá à medida que muitas descrições de espécies são antigas e não trazem estudos biogeográficos ou moleculares para determinar sua origem com segurança —ou seja, se são nativas do Brasil ou não. A nomenclatura evita confusões como a que ocorreu em relação ao mexilhão da espécie Perna perna, por exemplo.
Presente em todo o litoral brasileiro e cultivado para consumo humano, o Perna perna já foi apontado como introduzido no país por ação humana, uma vez que ocorre também na África, região de origem da espécie. Nessa versão da história, a espécie teria chegado ao Brasil no século 16 com as grandes navegações.
Posteriormente, porém, estudos arqueológicos e moleculares apontaram que uma população da espécie, separada em 2 mil anos da linhagem africana, já ocorria no Brasil antes mesmo da chegada dos portugueses em 1500. A espécie, portanto, é nativa da América do Sul e não foi introduzida por ação humana, como se pensava.
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