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Como a Austrália, conhecida por sua fauna exuberante, tornou-se o epicentro das extinções no planeta

18/08/2026

"Olhos bem abertos." Esta é a ordem que vem do banco da frente do carro.
Obedecemos e examinamos troncos e galhos, procurando entre a vegetação rasteira e as flores silvestres de cores vívidas algum sinal das listras do animal ou de um movimento rápido.
Estamos à procura do mirmecóbio, também conhecido como numbat, um raro marsupial australiano que parece uma mistura de esquilo com tamanduá.
Os numbats já foram numerosos em toda a parte sul do continente, mas a floresta de Dryandra, no sudoeste da Austrália, é um dos poucos lugares onde eles ainda vivem.
Enquanto avançamos lentamente pelas trilhas em meio à mata, os pesquisadores explicam como essa expedição anual ajuda a acompanhar a sobrevivência da espécie.
Classificados como animais ameaçados de extinção até este mês, os numbats vêm se recuperando. O trabalho da equipe que acompanhamos contribuiu para que fossem retiradas da Lista Vermelha Internacional de Espécies Ameaçadas, um raro sinal de esperança em um país que enfrenta uma crise de extinção.
Esta região da Austrália está no centro dessa crise: é um dos últimos refúgios de muitos animais levados à beira da extinção por espécies invasoras, doenças, expansão urbana, destruição de habitats e mudanças climáticas.
Em determinado momento, uma cacatua-negra-de-Carnaby, ameaçada de extinção, sobrevoa nosso carro. Em uma ilha próxima à costa está uma das últimas populações do marsupial mais raro do mundo, o potoroo de Gilbert. Nas águas azul-safira ao redor da ilha mergulha o leão-marinho-australiano, cada vez mais raro.

⚠️ A Austrália há muito é celebrada como um santuário da natureza, lar de algumas das espécies de plantas e animais mais singulares do mundo. Mais de 80% delas não existem em nenhum outro lugar. Mas o país pode ter se tornado a capital mundial da extinção, com a perda de cerca de quatro espécies por década, e a situação só piora.

Voluntários dedicados e conservacionistas com poucos recursos têm conseguido conter parte das ameaças crescentes. Ainda assim, especialistas temem que, sem medidas urgentes e coragem política, a biodiversidade que a Austrália diz valorizar caminhe para uma devastação.
"Nem é preciso imaginar. Isso está acontecendo diante dos nossos olhos", diz o professor Euan Ritchie à BBC News.
Se já é difícil avistar um animal raro na natureza, o numbat complica ainda mais a tarefa: do tamanho de um esquilo, ele é especialista em camuflagem, explica o biólogo Tony Friend, uma referência na conservação no estado da Austrália Ocidental.
"Hoje eles resolveram dormir até mais tarde", brinca Rob McLean, presidente da Numbat Taskforce, grupo de voluntários que permite boa parte do trabalho de Friend, feito com recursos limitados.
Durante duas semanas a cada primavera, quando os filhotes começam a sair das tocas, a equipe percorre diariamente o mesmo trajeto e registra cada numbat avistado. Anota as coordenadas de GPS, mede a distância até a estrada e usa uma equação complexa para estimar a densidade dos animais nessa floresta e, a partir daí, avaliar a situação da população como um todo.
Uma pessoa permanece em silêncio, concentrada, junto a cada janela. Outra vai na parte de trás da caminhonete, abaixando-se de vez em quando para desviar dos galhos das árvores ao redor.
Entre os troncos, às vezes vemos as áreas agrícolas desmatadas que cercam esse trecho de floresta protegida. À margem de uma das trilhas, uma máquina detecta gatos ferais e raposas e os borrifa com veneno, mais um sinal dos riscos enfrentados pelos numbats.
"Este ano tem sido de fartura", admite McLean.
Durante horas, seguimos pelas trilhas e vimos papagaios, wallabies australianos (da mesma família dos cangurus), um lagarto-monitor e dois equidnas (mamíferos espinhosos australianos), mas nenhum numbat.
Friend chegou a Dryandra na década de 1980 e encontrou uma população de menos de 50 numbats. Muitos dos fatores responsáveis por esse declínio eram os mesmos que continuam levando espécies à extinção em todo o país hoje.

A reportagem na íntegra pode ser lida no g1

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