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A viagem gelada da vacina: como calor, enchentes e apagões ameaçam cada dose de imunizantes no Brasil

08/09/2026

Uma dose de vacina é aplicada em segundos, mas chega ao braço no fim de uma viagem longa e gelada. Da fábrica ao posto de saúde, ela cruza parte do país sem que o frio escape em nenhum ponto do caminho —é essa temperatura constante que a mantém capaz de proteger.
O trajeto tem nome: rede de frio. Uma engrenagem de câmaras, caminhões e geladeiras que entrega a vacina tão forte quanto ela saiu da linha de produção. E que, num planeta mais quente e imprevisível, passou a enfrentar um adversário à altura: calor, enchentes e quedas de energia, cada um pressionando a seu jeito a estrutura que mantém os imunizantes vivos.
Antes de chegar ao posto, a dose descansa em câmaras frias do tamanho de galpões, embarca em caminhões refrigerados e espera em geladeiras especiais nas unidades de saúde —sempre entre 2 e 8 graus. Paulo Ernesto Gewehr Filho, representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) no Rio Grande do Sul, resume o porquê de tanto cuidado.
"A rede de frio é o sistema que armazena e transporta as vacinas até os pontos de aplicação sem que elas percam potência, eficácia e segurança. São produtos termolábeis: precisam de uma faixa de temperatura definida para preservar as características que tinham ao sair da fábrica", explica o médico.
Fora dessa faixa, algo invisível começa a acontecer: as proteínas que formam o imunizante se modificam, e a dose pode simplesmente parar de proteger. "A vacina pode perder o efeito de proteção e, em alguns casos, aumentar o risco de reações", diz Gewehr.
Nem toda dose que passou do ponto vai para o lixo —ela é separada e investigada, num episódio que ganhou até nome técnico, "excursão de temperatura", para decidir, pelo tempo e pelo calor a que ficou exposta, se ainda serve.
O que complica a vida de quem cuida das vacinas é que o El Niño não repete a mesma receita em todo lugar.
Segundo a nota técnica do Ministério da Saúde, apoiada em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e de outros órgãos, o fenômeno deve encharcar parte do Norte e do Nordeste, com risco de enchentes na Amazônia, e ao mesmo tempo secar o Sul e o Sudeste, com estiagem, queimadas e ondas de calor. No meio disso, uma constante: quase o país inteiro mais quente que o normal —e é o calor que mais tira o sono de quem guarda as doses.
“Quanto mais quente o ambiente, mais o equipamento precisa trabalhar para manter a temperatura entre 2°C e 8°C. Se houver falta de energia e o sistema parar, a temperatura interna sobe mais rapidamente, especialmente quando está muito quente do lado de fora”, diz Gewehr.
A seca traz seu próprio problema: no Norte, onde muitas comunidades só recebem carga por barco, rios rasos podem deixar postos sem reforço de estoque por semanas.
Nenhum episódio recente escancarou essa fragilidade como a enchente que tomou o Rio Grande do Sul em 2024. Postos submersos, campanhas paradas e doses perdidas deram a dimensão do que acontece quando a água chega às geladeiras.
Juarez Cunha, infectologista e diretor da SBIm, acompanhou o efeito em cadeia: com boa cobertura antes do desastre, o estrago é menor; o buraco aparece quando uma unidade fica alagada ou fechada por semanas, e a perda de doses, a campanha interrompida e a queda de cobertura chegam todas de uma vez.
A saída, ali, foi correr atrás das pessoas. “A campanha de vacinação contra a gripe estava em andamento, então as equipes foram até os abrigos e vacinaram as pessoas no próprio local”, conta o infectologista.
Durante o próprio desastre, sociedades médicas reuniram num documento os riscos de doenças ligadas às enchentes. A experiência reforçou o que os dois especialistas repetem: a hora de preparar a rede é antes da tragédia, não durante.
Há um segundo efeito: o mesmo evento que atrapalha a vacinação costuma dar fôlego a algumas doenças. Depois de uma enchente, a água contaminada favorece a hepatite A e as infecções intestinais, e a leptospirose tende a crescer nas semanas seguintes —para essa, aliás, não existe vacina humana.
Quando o calor volta, os mosquitos se multiplicam e alargam o território da dengue, da zika, da chikungunya e da febre amarela. Nos abrigos lotados, gripe, Covid-19 e sarampo circulam com facilidade.
Não é um enredo só brasileiro. A Gavi, aliança internacional de imunização, lembra que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já classificou a vacina como uma ferramenta de adaptação ao clima —e que, de 375 doenças infecciosas analisadas, 218 podem piorar com o aquecimento.
Para Cunha, o retrocesso deixa de ser hipótese quando as metas de cobertura não são atingidas. "É o que se vê agora com o sarampo, que voltou a crescer no Brasil e no mundo”.

A matéria na íntegra pode ser lida no g1

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