
10/09/2026
As inundações que atingiram o Rio Grande do Sul e outros eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos em diversas regiões do país evidenciam que as estratégias tradicionais de controle de cheias já não conseguem responder, sozinhas, à intensidade das chuvas provocadas pela mudança do clima. Para especialistas em planejamento urbano e gestão hídrica, em vez de concentrar esforços apenas em obras de engenharia nas áreas urbanas afetadas pelas cheias, é preciso planejar o caminho que a água percorre antes de chegar às cidades.
A resposta às chuvas cada vez mais intensas deve considerar toda a bacia hidrográfica. Baseada no conceito de bacia-esponja, a estratégia para enfrentar o novo cenário de intensificação dos eventos climáticos extremos considera o funcionamento natural dos rios, desde as nascentes até a foz. A abordagem busca orientar intervenções capazes de armazenar, infiltrar ou retardar o escoamento da água ao longo de seu percurso, aumentando a resiliência do território, reduzindo o risco de inundações e promovendo a sustentabilidade ambiental, social e urbana.
“É preciso superar a lógica de que é possível controlar o comportamento das águas por meio de obras de engenharia convencional. A crescente imprevisibilidade climática demanda estratégias abrangentes, capazes de tornar os territórios mais resilientes diante das incertezas do clima e, principalmente, da impossibilidade de conter a água em determinados cenários. Para isso, é necessário combinar projetos de infraestrutura, conservação ambiental e planejamento territorial”, afirma a paisagista urbana Cecília Herzog, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e consultora internacional em projetos que aplicam Soluções Baseadas na Natureza.
Cecília reforça que as recomendações para a gestão integrada das bacias hidrográficas se baseiam em pesquisas internacionais e experiências bem-sucedidas em diversos países. Ela é uma das autoras de um guia técnico sobre bacias-esponja, elaborado em colaboração com os pesquisadores Osvaldo Moura Rezende e João Guimarães, que deve ser lançado em breve pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O trabalho reúne conceitos, metodologia e orientações para apoiar gestores públicos, técnicos e pesquisadores na implementação dessa abordagem.
De acordo com a especialista, toda bacia hidrográfica funciona como um sistema integrado e, por isso, as intervenções realizadas nas áreas mais altas influenciam diretamente o volume e a velocidade da água que chega às regiões mais baixas. “Restaurar áreas naturais, proteger nascentes, recuperar matas ciliares, ampliar áreas permeáveis e utilizar Soluções Baseadas na Natureza nas cidades fazem parte de uma estratégia inteligente de adaptação climática”, diz. “Tudo isso precisa ser feito agora; não são projetos para o futuro”, salienta.
A implementação desse modelo de adaptação climática depende de planejamento em diferentes escalas, uso de geotecnologias, monitoramento contínuo e participação da população na construção das soluções. Esses elementos permitem que as decisões públicas sejam orientadas por evidências científicas e pelas características específicas de cada território. “O conceito de bacia-esponja tem inspirado soluções em outros países, como a China e alguns países da Europa. Precisamos difundir muito mais esses subsídios para os gestores públicos do Brasil, de acordo com a nossa realidade social, econômica e ambiental”, frisa Cecília.
O conceito de bacia-esponja amplia a ideia de cidade-esponja, difundida nos últimos anos entre urbanistas. A proposta com foco no caminho das águas reconhece a integração entre as cidades, as áreas de produção rural e as áreas de proteção ambiental, adotando uma abordagem sistêmica que considera as fontes, os fluxos e a acomodação da água. Isso significa compreender como a água é manejada desde sua origem, ao longo de seu percurso, até os espaços capazes de promover sua retenção, infiltração e regulação de forma sustentável.
Nas cidades, a estratégia pode ser fortalecida com Soluções Baseadas na Natureza capazes de reduzir o volume e a velocidade da água que chega aos rios, minimizando os impactos dos alagamentos. Entre os exemplos dessas intervenções estão os jardins de chuva e as biovaletas, estruturas com vegetação e solo filtrante implantadas ao longo de calçadas, canteiros centrais e praças.
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