
29/09/2026
Ipanema guarda uma prova de que o fundo dos oceanos é menos conhecido do que a superfície da Lua. Pesquisadores encontraram a meros quatro quilômetros da praia, nas cercanias das Ilhas Cagarras, ecossistemas inteiros pintados de cor-de-rosa. São bancos de rodolitos, recifes parecidos com os de corais, mas construídos por algas calcárias e que servem de berço e lar para peixes, crustáceos, moluscos e uma série de outros animais marinhos.
Esses bancos formam o tipo de ambiente marinho de recifes que costuma se associar aos Abrolhos e ao Caribe, mas que agora se sabe existirem juntinho à orla carioca. O biólogo Ricardo Gomes, presidente do Instituto Mar Urbano (IMU), descobriu o primeiro banco de rodolitos, em abril, ao mergulhar para fotografar raias.
Já se sabia que havia rodolitos, chamados de rochas vivas, no entorno das Cagarras. Mais de um estudo atesta a existência de espécies dessas algas ali. Porém, diz Gomes, não se tinha descrito nada nessa magnitude, capaz de formar um ecossistema rico em peixes.
— As raias me levaram para longe das ilhas, um lugar onde não se mergulha tanto. Foi aí que vi o fundo cor-de-rosa, me aproximei e me deparei com o banco de rodolitos, numa área grande, repleta de vida. Fiquei fascinado — afirma Gomes.
Ele ficou tão impressionado que fez novos mergulhos, desta vez atrás dos rodolitos, e encontrou um segundo banco.
A descoberta dos bancos de rodolitos foi confirmada pelo biólogo Rodrigo Leão de Moura, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em ecossistemas de recifes. Moura foi um dos descobridores do maior banco contínuo de rodolitos do mundo, o dos Abrolhos, e da existência de recifes de corais na foz do Rio Amazonas.
— É fascinante se deparar com um ecossistema inexplorado em frente a Ipanema, uma das praias mais famosas do mundo. O Ricardo encontrou porque observa o mar. Ele mergulha quase todos os dias. E o Brasil observa pouco o Atlântico. Satélites nos mostram só uma fração. E muitos estudos são pontuais. Sabia-se dos rodolitos nas Cagarras, mas não que formavam ecossistemas. É preciso trabalho na água — afirma Moura.
Enquanto a Lua segue a ser pesquisada, não mais que 26,1% do fundo do mar já foram mapeados — em sua maior parte, zonas costeiras. A Lua foi inteiramente mapeada numa resolução de sete metros. Já os melhores mapas do fundo do mar só mostram áreas maiores que 4,8 quilômetros de largura.
A descoberta de bancos de rodolitos nas águas da segunda maior metrópole do Brasil causou tamanha impressão que eles serão estudados agora com a ajuda de um robô submarino, um ROV. Este é um submersível do tamanho de um carro, equipado com sensores, câmaras e controlado à distância. Segundo Gomes, o trabalho contará com um navio com sonar. Ambos são cedidos pela empresa OceanPact. O equipamento será essencial para medir com exatidão o tamanho dos bancos.
Os pesquisadores encontraram dois bancos, mas acreditam que pode haver mais. Um deles, o mais próximo da orla, tem aproximadamente 20 mil metros quadrados, quase o tamanho de três campos de futebol. É o mais raso, está a dez metros de profundidade. O segundo é mais esparso, profundo e foi menos explorado.
Nos bancos vivem espécies de peixes valorizados, como vermelhos, budiões e cangulos. Estes últimos são tão abundantes ali que os pescadores chamam o local de “Cangulândia”, conta Gomes. Sabia-se que havia muitos peixes; a descoberta dos bancos explica o motivo, diz Moura.
— Além do ROV, a OceanPact vai fornecer um Side Scan. O Side Scan é um sonar de varredura lateral, um equipamento acústico rebocado, que mapeia o fundo do mar emitindo ondas sonoras e registrando o eco para criar imagens — explica Gomes.
Bancos de rodolitos não são propriamente fixos. Eles têm alguma mobilidade. E se espalham por centenas ou milhares de metros quadrados. O de Abrolhos é um gigante dos mares, com 20 mil quilômetros quadrados, ou mais de 16 vezes a área da cidade do Rio. Porém, eles são fáceis de mapear com sonar. Isso porque têm densidade diferente daquela da areia sobre a qual estão. Rodolitos são duros e a areia, mole.
Os rodolitos são conhecidos pelo apelido em inglês de rolling stones (pedras rolantes) porque formam bolas. Algumas alcançam o tamanho das de futebol. Mas a maioria mede entre 10cm e 20cm de diâmetro. Eles podem se aglomerar em bancos. Estes formam estruturas de recifes, como os de corais.
Os bancos são formados pela aglomeração de algas vermelhas calcárias (duras) de diferentes espécies ao longo de centenas de anos. Estudos em Abrolhos mostraram que as bolinhas de lá, do tamanho das de bilhar, levaram 400 anos para chegar a essa dimensão. Eles crescem, em média, um milímetro por ano. Moura frisa que os de Ipanema, ainda não datados, também devem ser seculares e estão bem vivos.
No fundo do mar, essas estruturas adquirem tons de rosa. As camadas exteriores são de algas vivas. As algas vermelhas vivem em seu mundinho rosa, porque fazem fotossíntese com luz azul, filtrada pela água. A azul é a última luz a iluminar as profundezas. E é dela que os rodolitos se sustentam.
A matéria na íntegra pode ser lida em O Globo
Caribe em Ipanema: descoberta de bancos de algas calcárias cor-de-rosa surpreende pesquisadores; veja
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